Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011
Comentário da leitora Maria Eugénia Resende

Não é fácil esquecer este livro, ele fala-nos de um problema que todos nós vivemos, não falo de pesquisas sentimentais ou busca da felicidade, qual Santo Graal da vida, porque esse é que é o Graal, não. Falo-vos isso sim, da solidão que tantos vivem no seu dia a dia e que Alex vive. Ele nunca se deixa iludir, ou melhor ele deixa-se aturdir pelo que vai vivendo, mas ele entrega-se à filofax e tem até vergonha por exemplo das palavras que Delfina lhe dizia enquanto se amavam. No fundo o Alex é quase um puro, ele acredita que ainda encontrará o amor, por isso continua a sua pesquisa sentimental.

Este livro  no qual a cada leitura vou descobrindo novas coisas, palavras nas entrelinhas, vou desfazendo uma teia, tal como a de Penélope que esperou vinte anos pelo seu Ulisses. Ela tecia durante o dia e desfazia à noite, para enganar os pretendentes que queriam o lugar de Ulisses. Também nós, podemos ir desfazendo a teia que José Couto Nogueira deixou, para os que mais fundo lêem, e a possamos desmanchar. 

Através das entrelinhas e das lágrimas de solidão que vou sentindo cair, embora o autor as não escreva, elas estão lá, são gritantes. Isso leva-me a crer que muitos homens que andam de cama em cama, que vão fazendo as suas pesquisas sentimentais, fazem-no porque procuram, não apenas  sexo, não mais uma, mas aquela, "a"...


Neste livro, o autor que nos conta através dos seus escritos registados numa filofax, as suas impressões mais profundas, como que o registo de uma pesquisa,  de um estudo, ele não se entrega, nós é que temos de o encontrar, porque ele está lá, mas não é Alex. Este é apenas o instrumento que José Couto Nogueira usa para nos mostrar que também os homens sofrem de amor e de solidão, e que até percebem muito do universo feminino.

 

Eu vivo para dentro, quem escreveu  o livro, também vive, é muito interiorizado, muito observador. Também Alex  não gosta de comentar as suas aventuras apesar dos incessantes pedidos dos amigos.  Contudo,  eu sou capaz de dizer o que sinto, mesmo aqui neste blog, sem medos, onde vos afirmo que adorei o livro e que ele me causou sensações.  

 

O autor  que está dentro da cabeça de Alex, é sempre parco em pormenores sobre ele, sobre o seu interior...ou melhor, sobre Alex, não confundamos as coisas, ele retrai-se, como que tendo medo de se revelar demais.

 

José Couto Nogueira usa a língua com preciosismo e com metáforas incríveis, como comparar a altura de um prédio a uma torre eólica, por exemplo. Usa muitos vocábulos sobre sexo, a vida de noite, muitas palavras de gíria, mas nunca há vulgaridade na sua escrita. A forma de escrita é diferente de personagem para personagem. Retrata bem a sociedade de uma certa classe média alta lisboeta e não só. E fala-nos da nossa Lisboa e dos seus bairros, com alguns pormenores, mas sem abusar na descrição.

 

Este livro é sobre o percurso de alguém que ama muito e com facilidade...os homens nunca se prendem como as mulheres, como nós mulheres nos prendemos e nos deixamos levar muitas vezes por um engano. As mulheres mesmo no orgasmo são diferentes.  Eles ejaculam porque acima de tudo está neles a capacidade de fecundar os óvulos que elas carregam.  E a ejaculação é simultâneamente o acto de criação e de prazer.

Mesmo os mais velhos têm a capacidade de procriar, embora menor, enquanto que as mulheres têm a tal capacidade de criação, muito mais restrita. Essa é para mim a maior diferença que existe entre o homem e a mulher.

No acto de amor, as mulheres precisam de estimulo, de carícias, precisam sentir o crescendo dentro delas...é algo uterino, que no clímax do amor, ou do sexo como muitos dizem, lhes provoca um misto de prazer e de dor na barriga, precisamente onde se encontra o útero. Já ao homens não...é tudo muito mais fácil e depende apenas do sangue nos corpos cavernosos do seu sexo.

 

Este livro, que releio de tão bem escrito, é uma mensagem do autor, é quase um grito de solidão, porque  sem dar por isso, ele chora nas entrelinhas, ele fica só, nem podemos considerar que seja predador, obcecado por sexo, não.  Ele faz uma busca, ele procura  por todos os meios, o amor e a felicidade. Como eu o compreendo. Quem não o procura?

 

O livro tem muito de sexo explícito e podem crer,  provoca algumas sensações físicas, dadas as descrições do autor, sobre o corpo feminino, sobre o acto em si.  Contudo,  é um livro que nunca é vulgar. Pelo contrário, apesar de falar sobre um assunto que poderia tornar-se vulgar, como muitos outros que tenho lido, este não, por vezes devo dizer-vos que é sublime.

 

O autor retrata os ambientes e as pessoas, como se estivéssemos a ver uma fotografia. Ou ainda melhor, como se  estivesse a escrever teatro e cada cena que vamos lendo é um cenário, descrito ao pormenor, ou a descrição de um quadro que o pintor vai pintando,  cada pincelada é sublime na palavra de Couto Nogueira. 

Adoro a maneira como descreve o corpo feminino e as alusões que faz, sobre o sexo da mulher e o liga à  origem das coisas, o nascer, o início de tudo. Acho fantástico como ele consegue ser  tão real e belo ao mesmo tempo.

Demonstra um enorme conhecimento do autor pelo ser feminino, muitas vivências, muitos anos de procura desse tal amor... são muitas experiências que certamente viveu, pelo menos algumas,  e refiro viveu porque as descrições são extremamente sentidas, são pungentes, palpáveis e o autor revela-se em algumas de forma quase explícita,  sem dar por isso. Não quero dizer que seja auto biográfico, não, isso não, demonstra isso sim é que o autor já viveu muito e dessas experiências e da sua muita capacidade criativa, deu forma perfeita a Alex, que pode ser um entre muitos que por aí andam pela sociedade.

 

Alex não é amorfo ou burro,  pelo contrário, é muito inteligente e é isso que faz com o que livro não seja absolutamente nada vulgar.  Mas não só, o percurso dele pelo livro, mostra-nos um homem de carácter que apenas ama demais, ele deixa-se levar pelo prazer e pela necessidade de o ter, pelo diferente, mesmo correndo perigos...ele está sempre a correr perigos.

O que tem piada é  que na minha primeira leitura, achei que não havia nada de pessoal do Couto Nogueira, engano meu, hoje saboreio cada linha e releio, volto atrás e encontrei-o.  Ele está lá, bem no fundo, porque ele procura o amor e a felicidade como qualquer um de nós. A minha primeira recensão deste livro, é absolutamente diferente desta, porque este livro não pode ser lido levianamente, isto é, de forma rápida e sôfrega como fiz a primeira leitura. Tem de se saborear e ler-se devagar.

 

Adorei e estou a adorei relê-lo...certamente não será a última vez, leio muitas vezes os livros que me dizem muito, e este, é certamente um deles.



publicado por Perplexo às 09:44
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Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011
Uma crítica

Deparei-me com esta crítica à "Pesquisa Sentimental num blogue:

 

http://semapelosnemagravos.blogspot.com/



publicado por Perplexo às 20:05
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Quarta-feira, 24 de Junho de 2009
Aconteceu no curso de Escrita Criativa

 Levei o livro do José Couto Nogueira para o próprio autografar. Levantei-me da cadeira uma dezena de vezes na tentativa de chegar ao escritor. Em vão. Como era a ultima aula, os alunos aproveitaram para levar os livros com o mesmo objectivo. Um autografo. Só pedia para o escritor não me perguntar se estava a gostar do livro.

 

"Só espero que não me pergunte se estou a gosta do livro." disse à Andreia.

"Porquê?".

"Porque estou a gostar mesmo e ele não vai acreditar. É daquelas perguntas que não devem ser feitas. Ninguém mais dizer que acha o livro mau, mesmo que ache. Mas eu juro que estou a gostar."

A Teresa arranjou logo solução.

"Chegas ao pé dele e dizes para ele esquecer tudo o que os outros lhe disseram acerca do livro, que tu vais ser verdadeiramente sincera. Que estás a adorar mesmo a sério. Mesmo, mesmo."

Só ela para se lembrar disto.

 

Aproveitei o intervalo, pedi o meu autografo e José Couto Nogueira perguntou se estava a gostar da sua obra. Eu respondi que sim. E pronto. Isso já ele ouviu dezenas de vezes, fui só mais uma e tenho quase quase quase a certeza que não acreditou em mim. Mas juro que estou a adorar. Juro. É daquelas obras que todos deveriam ler.

 

Odeio quando quero exprimir alguma coisa e sou vulgar. A vulgaridade não é credivel. Infelizmente.

 

Cláudia Oliveira

 

NOTA DE JCN: Encontrei este texto aqui: MAU FEITIO.

Obrigado, Cláudia!

 

 



publicado por Perplexo às 15:47
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Sábado, 9 de Maio de 2009
Comentário de Maria Luisa Loytved-Hardegg

 Começo por dizer que, em todo o livro há uma poderosa nudez de palavras, a reflectir a sinceridade do sentir do Autor. Pode ser rude, extravagante, insubmisso, transgressor, mas é verdadeiro e nunca espalha “o véu diáfano da fantasia” para encobrir a verdade.

Dir-se-ia que, de repente, olha em redor, num jeito rápido de voo de vespa para, logo a seguir tornar-se falcão peregrino, voando em picado sobre as pessoas, as coisas, para dentro e fora delas, esquadrinhando-as em si mesmo, achando-se umas vezes, perdendo-se noutras tantas.

            As vezes usa diálogos assustadores, quando a natureza dos protagonistas assim o requer, consoante a vida que escolheram. Para o autor, não se trata de as pessoas serem más ou boas, apenas são como são, e assim as descreve.

Neste livro a pesquisa sentimental é procurada sem êxito em quatro mulheres, todas elas diferentes e que não só são fotografadas a branco e preto, ou pintadas com coloridos quase coléricos, mas também radiografadas com um rigor, uma precisão de aparelho robotiano, e a rapidez de um meteorito.

Poético em absoluto, ainda que o negue teimosamente, José Couto Nogueira é Modigliani quando faz amor e Klimt quando sonha... Refiro-me à personagem do livro, Alexandre, que sonha, ama, procura, encontra e perde.

            No meio desta barafunda de amores construídos e contrariados, das fúteis reuniões dos amigos, dos colóquios filosóficos ou de pura bazófia, dos escondidos da cocaína, resta apenas a solidão de um homem que não desiste de ser amado, pois daí depende a sua felicidade.

            Num estilo muito pessoal, o Autor gosta das antíteses para provocar o leitor. Lembra a mão de uma mulher exibindo na mesma anéis preciosos  lado de outros de fancaria. E quando diz, fingindo-se desnaturado, que não o afecta um terramoto que mata gente às centenas, e logo afirma, como (um) Jesus, que as mulheres da vida também são capazes de amar.

            Em todas as afirmações, sejam antagónicas ou não , é directo, sem rodeios, limpo.

            Mas fica ao leitor a responsabilidade de acreditar em qual dos dois pólos pende mais o critério do autor. Por um lado tem a necessidade imensa de compartir a vida com amor, na mesma casa, no mesmo leito. Do lado oposto está a vontade, às vezes até frenética, de desenvencilhar-se do casaco incómodo das preocupações caseiras e quotidianas, para poder usufruir da casa onde vive, a sós e sem chatices. A verdade é que tudo isto existe um pouco, ou muito, em todos nós.

            Como escreve o autor:

 

            “O cérebro, que nos deu a água corrente canalizada e a Internet, lixa-nos quando queremos dar vazão aos instintos mais saborosos. Somos magníficos a pensar e ao mesmo tempo tão infelizes como os animais mais primitivos.”

 

            A vida, consoante a sentimos e estimamos, é descrita com acerto e maturidade. Sem trapaças. Sem defeitos.

            Erros?

            Só encontro um, no autor e não no livro; é um inveterado fumador...



publicado por Perplexo às 16:18
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Sábado, 18 de Abril de 2009
Chegou correio da província

 Traz apenas um diálogo:

 

A Camponesa foi à cidade no safanão da camioneta saudar o Escritor. O Abril vestia-se com as cores da Primavera. Trazia na maleta um papelinho dobrado com cuidado, não lhe fossem afrouxar as palavras na boca naquele momento de aperto. Assim e após o intróito descomedido em exclamações e reticências, que é como quem diz, em cumprimentos e espanto, ela abalançou-se:
- Escritor, quero dar-lhe um beijo, daqueles que só as palavras descrevem e essas encontrei-as no interior do seu livro. Na intimidade de um quebra-luz vi maremotos na sombra de corpos fogosos; escutei sons de fúria, de solidão e esperança; senti uma vida supérflua e dourada; percebi a coragem que só existe na vontade de ser feliz; o Alexandre, a Delfina, a Mariana, a Patrícia, o Gil e o Russo habitam o meu imaginário em páginas que são varandas urbanas. Parabéns Escritor e obrigada pela obra de arte que aos meus olhos chegou em felizardos vagares.
- Camponesa, posso beijar-lhe as mãos?



publicado por Perplexo às 11:00
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Domingo, 12 de Abril de 2009
Uma opinião vinda por e-mail

Terminei a "Pesquisa Sentimental". Parabéns! Dedilha uma nova obra de arte.


Rebobinei. Daria um filme. A Delfina e a Mariana estelantes; o Gil e o Russo abelhudos mas amigos; a Patrícia, qualquer actriz empertigada do nosso Portugal; o Alexandre muito ao estilo da personagem principal do Notting Hill, interpretado por Hugh Grant; preferia que a Mariana tivesse sido acometida pela verdade de Júlia Roberts (Anna Scott) nas últimas páginas, as que os olhos pretendem mudar o rumo.
Uma das páginas mais sensuais a 343, sem dúvida.



publicado por Perplexo às 00:13
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Sábado, 4 de Abril de 2009
Conversa no programa "Nuno e Nando"

No dia 2 de Março, na Antena 3, Nuno Markl conversa com José Couto Nogueira a propósito do "Pesquisa Sentimental", e com Mickael d Oliveira e John Romão, do grupo de teatro Colectivo 84.


O podcast está neste link



publicado por Perplexo às 11:14
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Quarta-feira, 1 de Abril de 2009
Um leitor comenta uma ausência na narrativa...

 De Jonas a 29 de Março

 

Olá

 

Antes de mais deixe-me ser simpático e dizer-lhe que estou a gostar do livro (já tinha gostado do Táxi e, mais ainda, do Casa Na Praia). Ok, agora já posso ser desagradável ...

 

Estou a cerca de 2/3 (comecei antes de ontem), na primeira cena de sexo do Alex com a executiva e ocorreu-me que nunca se falou de preservativos no livro. (se calhar o assunto ainda vai aparecer, e ai o meu comentário deixa de ter sentido.) Eu tenho 43 anos e sempre vivi em Lisboa por isso sou da “geração” do Alex. O seu livro trata de uma realidade “diferente” da minha, isto é, eu frequentei pouco essa noite lisboeta e os meus amigos tinham conversas diferentes das retratadas no seu livro. Mas mesmo assim (todos nós também investíamos energias e tempo em “caçar” tipas) o assunto do preservativo é e foi uma constante. Mesmo que nas alturas apropriadas não o usássemos (como o Alex e Cª), no mínimo reflectíamos sobre a sua (não) utilização. Acho que nem vale a pena eu referir-lhe a “importância” do preservativo na postura dos homens/mulheres face ao sexo; de certeza que a conhece bem (não estou a falar apenas de sida, estou a falar de machismo, medo de ofender, medo de decepcionar, etc.) Andar com um preservativo na algibeira era como andar com a carteira (estou a exagerar um pouco, mas não ando muito longe da verdade). Que agora é assim, é um facto. Mas mesmo nos anos 90 (é ai que a acção se passa não é?) já era um hábito comum. Não era a sua realidade? Não a acha relevante?

 

Afinal não era para ser desagradável, era apenas uma dúvida (bem, se calhar uma critica). Não sei como colocar esta mensagem a não ser como comentário de um post. Escolhi este como podia ter escolhido outro. Era bom que houvesse um local onde os leitores pudessem deixar impressões/notas/questões/críticas. A mim quando leio um livro apetece-me sempre dizer bem de algumas coisas e mal de outras. Mas se calhar isso é para se fazer com os amigos e não com os autores (deve ser insuportável ler uma critica negativa).

 

Fico a aguardar o quarto.

Cumprimentos

 

 

Resposta do autor: 

Jonas, muito obrigado,em primeiro lugar pelos seus elogios, em segundo por se ter dado ao trabalho de comentar.

Se quer que lhe diga, tem toda a razão!

É uma falta da história... Por mais incrível que pareça, esqueci-me completamente do assunto. E não deveria ter sido ignorada, porque de facto foi (e é) uma questão de grande importância. Não só pelo aspecto "didático" (poderia ter tecido algumas elocubrações, com umas personagens a falar das vantagens e outras a desconsiderar o problema) como porque de facto parece impossível que não haja alguém no livro a pensar no assunto, já que não faltam ocasiões...

Agora não há nada a fazer! Olhe, fica para a próxima.

 



publicado por Perplexo às 00:26
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Segunda-feira, 30 de Março de 2009
Entrevista ao programa "Acontece"

 Pois é, o "Acontece", aquele programa da RTP2, não morreu; ou melhor, morreu e ressuscitou na rádio. Segundo eles, passa em centenas de estações por todo o país. Espero que sim, pois entrevistaram-me um dia destes.

 

 


 



publicado por Perplexo às 17:19
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Terça-feira, 17 de Março de 2009
Correio da província I

 Troca de emails... Realidade ou ficção? Onde está a fronteira, qual é a diferença?

 

1 Camponesa

A palavra bota-se no almofariz e faz-se da moenda uma cantiga embebida de outro além.

Repousa alguns parágrafos quiméricos. Nada de especial acontece, até ver. Demora algumas páginas em branco. E então, ai verdes campos de retalhos, onde a emoção é pedra que devolve ao muro a rigidez.

Não Escritor, ainda não li "Pesquisa Sentimental", esteve nos meus olhos numa livraria, à espera que a crise se afogue.

Só o vinha cumprimentar. Felizes dias.

A Camponesa.

 

2 Escritor

Não deveria ser "camponesa", mas sim a "poetisa das alegorias"!

 

3 Camponesa

A Camponesa tem nos tamancos o passo da jorna, que a alma teima em cerzir nas medas de palha. Uma mancheia de milho-rei, Escritor. Cada grão reticências que a planície de uma folha aguarda.

(Obrigada pela resposta)

 

4 Escritor

Não gosto de conversar com pessoas que não sei quem são. É porque gosto de pessoas.

 

5 Camponesa

A Camponesa esfregou os olhos, como quem tira ciscos imaginários.

Escritor, boa-tarde, bons ares!

Venho de novo pisar o seu pátio das sombras, para me desculpar. Realmente as palavras podem nascer num tronco de árvore, num graffiti de urbanismo incandescente, numa linha surda telefónica, no interior de um ramalhete, assim na sombra humana.

Vim porque o seu último livro me deteve numa livraria, porque dias depois ouvi a sua entrevista na Antena 1 e, claro, o expositor do blog.

Escritor aqui lhe deixo as melhores saudações minhotas, onde o verde advém do azul do céu que descai no rio e do amarelo da espiga labutadora.

Como pelas suas palavras depreendo que não mais me responderá, desejo-lhe um caminho ladeado de êxitos.

 

6 Escritor

Camponesa, infelizmente (ou felizmente, vá lá saber) a minha curiosidade é mais forte do que a prudência (ou os pruridos, quem dirá) e não resisto a prosseguir este jogo de escondidas (com o rabo de fora, é o que se vislumbra). 

Isso deve-se em grande parte (ou mesmo parte inteira) à sua escrita pastoral-alegórica pois, como calculará (ou calculou de antemão) não há escritor que resista a uma prosa intrigante, espirituosa e bem adjectivada.

Continue, pois. Não só tem um texto arejado (é o termo!) como se vai revelando aos poucos — provavelmente tudo mentira, mas tem graça mesmo assim.

E espero que leia o meu livro em breve, sim senhor, embora ache que já o deveria ter feito, pois quem vê capas e ouve entrevistas não vê corações.

 

7 Camponesa

A noite caía no eirado, manchando tristemente o espigueiro. A Camponesa esfarelava o pensamento no alguidar de grés. Com os dedos circundava o rebordo como quem desenha a lua, que além a colina quase beija num espreguiçar. Depois, na fundura, encontrava na vinha-d'alhos o cheiro da tasca, onde se enchiam blasfémias em malgas picadas e a língua do presunto se encavalitava na broa. Às vezes a rapaziada, no fole de uma noite, pegava na concertina e inflamavam-se as gargantas. O badalo do sino que bramia lá no adro, alertava-os para a procissão das beatas e sua santa prole.

A Camponesa ouviu o gato a arranhar a porta, o vadio, que rente ao muro vigiava a liberdade nas asas de um pardal. Tapou o alguidar com um pano axadrezado, passou a mão no pêlo malhado e abriu a janela de um livro.

Escritor, obrigada por me aceitar na sua sala de visitas. Prefiro o nicho onde se avista o rio, perto do avarandado.

 

8 Escritor

Alguma vez a camponesa privou com o escritor? Porque este endereço do escritor, não sendo secreto, é privado.

 

9 Camponesa

A Camponesa repuxou a cortina branca da janela da cozinha, para deixar o sol dourar o fio de azeite que caía na panela da sopa. Já a abóbora, a cebola e a batata, que talhou como flores, se dissolviam na fervura. E mais o naco do chouriço a boiar no caldo e exaltar o gosto. Após mais uma mexedela, aproximou a colher de pau do nariz e aprovou a sua a arte num sorriso. Enlaçava de novo o avental, na cintura estreita, quando avistou lá ao fundo, no princípio do caminho poeirento o carteiro Tomé. Acenou-lhe prazenteiro, agitando um envelope acastanhado e recolocou o boné no centro da cabeça, cuja calvície prematura o arreliava. Ela enxugou as mãos no avental, desengonçou o ferrolho que roncou e foi acudir ao mensageiro:

- Bons olhos a vejam Camponesa!- exclamou perdendo o olhar na trança que descia sobre a nudez do ombro.

- Carteiro Tomé, personagem dos meus melhores capítulos, como está?

- Bem, sabendo que da última vez ainda consegui trespassar a ponte levadiça, no dorso do Jaspe, no momento em que labaredas consumiam o castelo dos suspiros. Hoje com outra roupagem, trago-lhe uma missiva sem remetente - com a mão em bandeja entregou-lhe o envelope. - Até mais ver!...

- Aguarde, por favor, desconhece deveras o expedidor?

- Tal como vos disse, ainda na frescura da aurora eu entreabria as castanhas dos olhos, quando um pombo-correio debicou o meu dedo do pé, que abalava pela peúga afora!

- Inteiro desconhecimento, podemos concluir?

- Assim é, lamento.

 

Escritor. Tenha um bom-dia.

 

10 Escritor

Richard Burton foi um explorador inglês do século XIX famoso por várias razões: descobriu a nascente do Nilo, traduziu a Kamasutra e era extremamente irreverente com a formalidade britânica. Um belo dia, num baile, começou a cortejar uma jovem. A mãe, encrespada com a situação, interpelou-o:

— May I ask you sir, what are your intentions towards my daughter?

Ao que ele respondeu, sem pestanejar:

— Strictly dishonest, madam.

Ah, já me esquecia! Talvez a camponesa, minhota e tão versada no vernáculo português, não tenha letras noutros idiomas. Aqui vai:

— Posso perguntar-lhe, senhor, quais são as suas intenções com a minha filha?

— Exclusivamente desonestas, minha senhora.

 

11 Camponesa

Quis scribit bis legit.

 

12 Escritor

Patere quam ipse fecisti legem

 

13 Camponesa

Magister dixit.

 

14 Escritor

So... what's next?

 

15 Camponesa

A Camponesa tem o olhar suspenso naquele traço de avião, que se dilui no céu entardecido. Escritor, não sei como amanhar palavras que cheguem até si e não o façam franzir o sobrolho.  As minhas pegadas:

Minhota... pensamento poético... um escritório o meu ganha-pão... nunca houve rua que nos visse, nem esplanada que nos acolhesse ... cada vez mais curiosa pelo seu livro ... agradecida pela paciência.

 

16 Escritor

Camponesa, poeta, sem arrogância digo — digo até mesmo com humildade — que poderei fazer por si?

Poderei dar-lhe o livro... o prazer que me tem dado a sua prosa bem que merece um presente que, espero, seja do mesmo nível.

O anonimato é imprescindível para si, ou trata-se de uma brincadeira, ou de um jogo que se poderia perder? (Se bem que continuá-lo indefinidamente também  torne a perda inevitável.)

Já pensei que poderá ser alguém que conheço e que assim se diverte... Mas também pensei que isso não tem a mínima importância, uma vez que também me estou a divertir.

 

17 Camponesa

A Camponesa foi ao poço do tempo dos contos profundos, agora recoberto por uma hera matizada de silêncios secretos e uma roseira bravia furta-cor . Ali queda a alinhavar palavras, com um toco de lápis mordiscado, soprou para o ponto arredando-o da vírgula. A planura do papel, amarelecido pelo crestar do Sol, foi testemunha do piscar de olho do espanta-pardais a  acicatar a passarada.

 

 

18 Camponesa

A Camponesa, em diálogo inventado:

- Escritor, uma fotografia pode ser um polvilho do mundo que só alguns enxergam?

- Camponesa, deixe-se de palavras aradas!

- Aguarde, sente-se no degrau onde principia a noite...

- Vá lá, tenho pressa nos olhos e vagar no passo!

- O meu dia começa às seis da manhã, refresco o sorriso, alimento-me, leio, escrevo...

- E?

- Às oito estou no escritório até às quatro e pouco da tarde. Faço um brevíssimo intervalo para almoço.

- Compreendo a nossa incongruência horária.

 

Tenha uma boa-noite, Escritor.

 



publicado por Perplexo às 00:33
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