Terça-feira, 3 de Março de 2009

O comentário de Aleksandra Dziuba

 Dos mais de quinhentos alunos que frequentaram os meus cursos de Escrita Criativa, creio que Aleksandra foi quem mostrou mais talento e maturidade na escrita, apesar de ter apenas 21 anos. Por isso resolvi pedir-lhe um comentário ao livro, ao qual Aleksandra acrescentou algumas impressões sobre o lançamento.

 

            O que inicialmente poderia assustar os mais cépticos – outra chatice sentimentalista nãããoo! –, é na verdade um título bem escolhido e que faz todo o sentido, unindo a quase investigação científica às emoções mais humanamente falíveis: uma perspectiva moderna da mais velha questão do mundo. Deparamo-nos com a busca pelo Santo Graal dos sentimentos, numa visão claramente masculina, apesar de não fazer justiça ao livro falando nas tradicionais diferenças entre sexos, pois neste assistimos a uma deliciosa inversão de poder. A mesmice típica dos romances que abordam o amor florido e todo-o-poderoso também não me atrai – deve ser uma coisa de Alexandres –, mas este vence pela originalidade.

            Curiosamente, a minha primeira impressão em termos de conteúdo roçou a percepção de um desfilar de pêgas pelas calorosas mãozinhas do protagonista, mas com uma introspecção mais profunda no sentido de ultrapassar a superficialidade deste trauma inicial, pareceu-me ser apenas a conservadora fada perlimpimpim num corpo de hipopótamo em mim a falar. Que azar, com tantas mulheres mais interessantes no livro, modernas, independentes, deslumbrantes, fui logo identificar-me com a mais sem-sal! Agora sim, consciente dessa falha pessoal, admito ser esta uma abordagem curiosa, uma perspectiva de futuro incerto e repleto de excitantes possibilidades. Um olhar muito actual, tanto para as vivências modernas, como na temática descritiva das mulheres, hoje fortes e independentes: uma inversão de papéis que já merecia uma resposta masculina – e que muito divertiu o meu lado mais feminista. Outra leitura interessante teriam sido apenas os próprios apontamentos do Alexandre, em que o processo meticuloso de armazenamento das cogitações e eventos de referência constitui um método de pesquisa fascinante, cujo apanhado na narrativa representa um toque de mestre e um acesso privilegiado à intimidade do protagonista. Parece-me um tema ingrato, dificílimo de abordar, quer fantasiado, quer pela auto-escavação sentimental. Uma excelente forma de terapia para o autor, uma interessantíssima leitura para nós. Apesar da natural dificuldade em abordar um tema já tão explorado, esmiuçado até à mesmice novelesca, a narrativa não perde a graça, tanto pelos dotes literários do autor – já mencionei que o admiro muito? – como pela capacidade descritiva que vou chamar fotográfica – de facto, a melhor parte de não perceber nada de crítica literária nem ter altas pretensões, é que posso servir-me de expressões idiotas a gosto. Pois bom ângulo, sr. Fotógrafo. Enquadramento emocionante. Cru, real, puro e duro.

            Irrompem expressões fantásticas, e são dissecadas minudências da vida como o vazio da ausência alheia, a necessidade do outro como prolongamento pessoal, a segurança da presença alheia mesmo quando apenas implícita, a por vezes difícil amizade, as contradições emocionais, a infinidade de possibilidades do desconhecido, as relações modernas, o arrebatamento que contrasta com a estabilidade do porto seguro. E as novas mulheres, claro. Pois se as mulheres são esfínges e tentar resolver o enigma só aumenta a confusão, excelente tentativa.

            Não era minha intenção exceder-me no comentário – ó doce ironia –, nem ambicionar a escabrosa tarefa de resumir os pontos altos do livro, ou mesmo espremer exemplos rebuscados para classifica-lo, tudo para procurar justificar o facto de ter apreciado a sua leitura. Gostei, e o resto é conversa, certo? Apenas gostaria de reforçar os meus parabéns ao autor pelo interessantíssimo livro – note-se a boa dose de saudável inveja assumida –, e sugeri-lo aos que ainda não tiveram o prazer de o ler. Um must.

 

            Quanto ao lançamento do livro, foi uma hora pequenina, e tinha essa vontade sádica de ouvir gemer e esbracejar mais um pouco a propósito deste novo filho lançado ao mundo, etapa essa que desconheço mas que me petrifica até ao ridículo. Provavelmente o curso deixou-me mal habituada, ou talvez tenha sido a nostalogia do final deste, mas tinha ficado a ouvir mais explicações, mais opiniões, alguns conselhos, tentativas de análise, enfim, os disparates possíveis que me pudessem ajudar a entender melhor este mundo e o próprio livro na opinião do seu autor. Mas entendo perfeitamente as urgências do tempo em que vivemos, e não retiro os parabéns iniciais também pela organização do lançamento, assim como pelo agradável convívio proporcionado. Depois da ânsia para ouvir falar o professor, careci de coragem para enfrentar as feras, a tal diversidade de espécimens a acotovelar-se em filinha interminável para sorver mais um pedaço. Mas arrrependi-me, independentemente de já ter o livro assinado. Então não é que o livro tem muitas páginas e arranjava-se sempre espaço para outra dedicatória!?

            E com a referência ao curso acabo, com um agradecimento infinito pelas doutas palavras. Ao professor, espero voltar a vê-lo, quiçá numa outra formação ou mesmo no lançamento da obra seguinte, e espero que continue a preencher as nossas ocas e inocentes cabecitas ávidas de novidades com sábios conhecimentos. E bons livros.

 

Aleksandra Dziuba

publicado por Perplexo às 12:49
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