Segunda-feira, 9 de Março de 2009

Uma leitora comenta por Messenger

Leitora: É só para lhe dizer que já li tudo... e aquela cena final da despedida está fortíssima...

O final é muito intenso.

 

Autor: Sim, sim. Eu gosto é do parágrafo final. Depois da despedida propriamente dita, ou seja, depois de acabar a acção.

 

Leitora: Realmente colocou grande tónica nisso. Não esperava.

 

Autor: Já estava escrito há anos, mais coisa menos coisa.

 

Leitora: Sabe que me fez chorar? Mas não diga a ninguém.

 

Autor: Não digo a ninguém, mas sinto-me muito orgulhoso! Gosto de fazer as mulheres chorar... Estou a brincar, claro.

 

Leitora: Não sei explicar porquê, mas tocou numa tecla sensível

 

Autor: Gosto de saber que toquei numa tecla sensível. É essa a ambição de todos os escritores, acho eu.

 

Leitora: Penso que criou uma personagem masculina profundamente feminina, que me fez sentir compreendida.

 

Autor: É a segunda pessoa que me diz isso – hoje.

Será que o Alex é gay?

 

Leitora: Já chega de mimo! Mas, a sério, surpreendeu-me e muito pela positiva. Todo caladinho...parecia que não partia um prato e estava lá a escrever um livro interessantíssimo.

 

Autor: Quer dizer que estava à espera de uma coisa desinteressante... Escrever um livro é partir muitos pratos. Muitos.

 

Leitora: Nãoooooooo, nada disso. Apenas me surpreendeu.

 

Autor: Fica cliente, então?

 

Leitora: Gostei muito mais deste do que dos outros dois.

 

Autor: Eu acho este mais bem acabado. Mais polido, digamos.

 

Leitora: Agora tem de mostrar mais o que vale.

 

Leitora: Espere aí um ano e meio ou dois que eu volto já...

 

Leitora: E tem imensa reflexão explícita.

 

Autor: O que é uma reflexão explícita?

 

Leitora: Penso que muitas vezes as ideias surgem nos livros em texto latente. Neste caso o Zé optou por as explicitar.

 

Autor: Agora... Não sei o que é nem reflexão explícita nem texto latente.

 

Leitora: Mas no final, curiosamente, as explicações ganham menos peso em relação ao desenrolar da acção. Mas os escritores por vezes servem-se de recursos indirectos para dar "mensagens".

 

Autor: Claro.

 

Leitora: No seu livro, nos tais momentos de reflexão, as explicações, ou seja, as ideias principais, são apresentadas explicitamente.

 

Autor: Obrigado pelo elogio. Mas espero que também tenha achado inconveniente. Adoro ser inconveniente, provocador e incómodo.

 

Leitora: Você é terrível Que pena não ser o delicioso Alexandre.

 

Autor: Pois, mas realmente não sou. Acho o rapaz um bocado parvo. E um careta.

 

Leitora: Agora até embirra com a personagem que criou. Só você mesmo.

 

Autor: Não embirro... apenas não me identifico.

 

Leitora: Em determinados momentos também achei que sim. Para homem, exigia-se um pouco mais de força, sem dúvida.

 

Autor: Ora aí está. Se bem que, com mulheres daquelas, não lhe ia servir de muito, parece-me.

 

Leitora: A Mariana era osso difícil de roer. Coitada, ela própria não se aguentava.

 

Autor: E a Delfina também. De uma maneira completamente diferente. E isso é que tem graça — as duas tão diferentes, as duas tão impossíveis.

 

Leitora: A Delfina ainda era pior, mas como tinha menos força ficava mais soft.

 

Autor: Mas no final (a Delfina) porta-se como um homem: a minha profissão está acima do nosso amor...

 

Leitora: Ninguém é totalmente assim. Nem a Mariana, com o seu ar quase implacável.

 

Autor: Olhe que a Delfina, com aquele ar de graciosidade, não hesitou no que lhe interessava. Agora, a Mariana, acho que não consegui equilibrar tão bem a personalidade.

 

Leitora: Com a Mariana, ia-me dando uma coisa má.

 

Autor: Devia ter um ar menos implacável... Mas aí não ficava tão diferente da Delfina — isto não é fácil!

 

Leitora: Acaba por se tornar menos verosímil. Uma pessoa muito fria.

 

Autor: A verosimilhança é o mais complicado, quando nos metemos a inventar em profundidade. Uma personalidade é muito complexa e difícil de fabricar no papel.

 

Leitora: A interpretação que fica é que o final apenas se justifica porque  provavelmente ela tinha problemas consigo própria.

 

Autor: Pois, a minha ideia era por aí: uma mulher cujo problema era não ter problemas, e outra cujo problema era ela.

 

Leitora: Considero que o fez bem, conseguimos entender bem as diferenças . A mesma coisa com os amigos e as suas diferentes respostas e abordagens.

 

Autor: Os amigos, quis fazer uma espécie de anjo bom e anjo mau, mas num conceito mais contemporâneo, em que a bondade e a maldade não são tão distintas.

 

Leitora: Aquele seu Gil é um querido. É mesmo branco ou preto.

 

Autor: Ele é um bocado condescendente demais, tipo não te rales que está tudo bem. Enquanto o Russo é o oposto, nunca está nada bem. Não sei se ficou assim, mas era essa a ideia inicial.

 

Leitora: Acho que o colocou bem, no sentido do que deve ser um amigo, que defende sempre os amigos.

 

Autor: Sim, mas os amigos realmente não ajudam, como o próprio Alexandre repara É o que eu acho: há coisas que, por mais que os amigos queiram ajudar, não podem. Só servem para estabelecer confusão no espírito. Como quando estamos nos cuidados intensivos. Digamos que os amigos consolam, mas não ajudam.

 

Leitora: Pois principalmente quando se instala o vazio dentro de nós... Mas, pronto, agora tenho pena do livro ter acabado. Estava mesmo a gostar.

 

Autor: Já lhe disse; é só esperar uns dois anos que eu faço outro. Mas não vai ser romântico como este. O tema do romantismo fica encerrado. Não tenho mais nada a dizer sobre o assunto.

 

Leitora: Oh, que pena!

 

Autor: Então, este já tem teses de dão para anos de terapia...

 

Leitora: Penso que há sempre aspectos a acrescentar à volta do tema.

 

Autor: Sim, pode-se sempre acrescentar, mas o essencial que eu queria dizer, está dito.

 

Leitora: (Sim, sim, mostrou bem o que é o amor e o que é a perda. Então e o próximo?

 

Autor: O tema do próximo são os dois sentimentos nacionais mais prevalecentes: inveja e arrogância. Como o "Orgulho e Preconceito" da Jane Austen, que são os sentimentos prevalecentes entre os ingleses.

 

Leitora: Sabe que eu já tinha pensado nisso, mas numa abordagem histórica e política.

 

Autor: Mas é isso mesmo. Os meus romances são sempre políticos e históricos — só que a História é contemporânea.

 

 

publicado por Perplexo às 14:22
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