Terça-feira, 17 de Março de 2009

Correio da província II

 19 Escritor

A camponesa é uma miragem, uma espécie de tentação de outros tempos em que as coisas eram mais simples, os sentimentos mais claros e as vivências menos complexas.

A Camponesa está longe, lá nos campos do Norte, afastada das tecnologias inexoráveis, quase impossível de ver,tocar, cheirar. Mas existe, está.

A Camponesa é uma tentação.

 

20 Camponesa

Na laje que permeia o olival, estendeu um lencinho de cambraia e sentou-se para pratear as letras, para no pontilhado do Sol imaginar o chão que o pintor concedeu ao céu.

A Camponesa agradece o momento.

Escritor, saudações minhotas.

  

21 Camponesa

A canção jorra da fonte. A este intervalo de luz em que os olhos amainam sobre a seda na pedra é felicidade.

A Camponesa tem um certo rubor na face. Obrigada Escritor.

 

22 Escritor

Com gripe, murcho, ao lado dos cágados que mergulham no aquário, o Escritor pesquisa os mapas. Esta terra pequena… Cá está. Zoom na aldeia. Ruas várias, nenhuma calçada com tal nome. Mas está lá, com certeza. Aqui, algures, a Camponesa sentada em frente de um computador, o telefone, os papéis, o escritório com divisórias sintéticas, os olhares dos escriturários, recibos e facturas...

O Escritor sente vontade de voar para a aldeia, levado pelas asas da aventura, o Norte na bússola... 

Pensa. O Escritor não escreve assim. Tem um texto urbano, rápido. É a Camponesa, o texto novecentista da Camponesa que o faz escrever assim.

Como é romântico, tanta distância!

O Escritor olha para a fotografia. Lá está a Camponesa sorridente, feliz, na natureza, com a camisa de jeans entreaberta, os brincos, o brilho. A Camponesa irradia um brilho fantástico, como uma estrela fosforecente ("estrela fosforecente" está no livro, no final, é uma explicação...)

Tanta distância. Tanta vontade. 

É uma química. 

O Escritor julgava que a química só acontecia na proximidade. Nunca a tinha visto a funcionar à distância. Ou será uma ilusão?

Mas alguma coisa deverá existir. O que terá levado a Camponesa a procurá-lo entre tantos livros, tantos escritores? 

O que terá levado à existência de uma Camponesa nesta aldeia, ao brilho fosforecente, ao interesse inusitado?

Tanta distância, tantos mistérios.

A trama adensa-se.

 

23 Camponesa

Vou pegar na "trama adensa-se"; acha que há uma ficção que quer povoar papéis desérticos? As personagens principais:  o Escritor e a Camponesa. Como encetaria o filme de um e o bordado de outra? Qual a sinopse?

Escritor, abriu a porta à gripe? Não acautelou o ferrolho?

Saudações minhotas.

 

24 Escritor

Como é que um Escritor faz para não se apaixonar perdidamente por uma pessoa que não conhece e nunca viu, e com quem dificilmente pode privar? Como faz? Pois,considera tudo como um sonho... Uma estrela vinda pelo espaço internético, um brilho na imaginação do Escritor, que é fertil e desenfreada...

 

25 Camponesa

A Camponesa resvalou o olhar pelo canteiro das azáleas. Aprendeu no macramé verde e rosa a jardinar com letras, a regar com lágrimas e a podar com os dedos. Agora engenha com o Escritor um tapete voante.

  

 26 Escritor

Camponesa, porque não faz um blogue? O seu texto tem uma textura e um sabor que com certeza deixaria muita gente a pairar pelas paisagens…

 

27 Camponesa

A água buliçosa lava as pedras do regato e num murmúrio enternece a boca da Camponesa do Minho.

Escritor, como está? E a gripe?

Tal como o paladar, também as letras gostam de experimentar novos condimentos.

Escritor, faça brotar o blog, se quiser, o cenário é seu, os textos nossos!

O blog seria uma patuscada cidade/campo, diálogo embriagante entre Escritor e Camponesa. Pense nisso.

 

28 Escritor

Bela Camponesa

Lá longe na raia, tão apetecível e tão distante...

Podíamos fazer um blogue, não me sinto habitilitado a fazê-lo com a menina, porque os nossos textos são muito diferentes. A Camponesa deve e merece ter um blog só seu. Se por acaso não se sente encorajada a construi-lo, o que o Escritor pode fazer é construi-lo para ela — mas depois será só ela a inserir as suas pérolas.

 

29 Camponesa

Os meus dedos de espiga tangem no adufe da noite, como se fosse a lombada em cabedal coçado de um livro. Desconheço o paradeiro do Escritor, logo hoje que a terra está em pousio e a massa do pão a levedar. Tenho o mocho onde me assento perto da bocarra da lareira, já acamei lenha suficiente para me aquentar. O caderno de folhas salpicadas de farinha e água está aberto no meu regaço.

Sabe Escritor, gostava de lhe tecer uma história, tal como o vestido domingueiro da moça que vai até ao adro da igreja e despe os olhos de quem a vê passar. Por dentro dos sentidos, já alinhavo pétalas de papoilas, para brotarem palavras voluptuosas, e de gardénias para primaverar o ar; malmequeres em travessões para o cabelo trazem à lembrança laivos de sol a raspançar madrugadas, e cravos botam asas às bordas para libertar o verbo. Tudo isto na folha do caderno salpicada de farinha e água e um graeiro de sal, não convém esquecer.

Hoje quando vinha da lida, reparei no pechisbeque a rebuçar o planalto da mulher que amamenta a vida e ela sentada na traseira da carroça, com a pernas da cor de um beijo a tesourar a sumaúma que o vento abelhudo empurrava.

Escritor, tenha uma noite tranquila.

 

30 Escritor

Aqui estou eu Camponesa, atento e agradecido

Mal consigo acompanhar a sua prosa — tão rico o vocabulário, tão alienígenas as expressões. E como ler Aquilino, é preciso um dicionário, mas os dicionários, sempre a modernizar-se e a universalizar-se, não trazem estas coisas...

O seu e-mail chegou como uma pomba branca, a clarear-me a noite. Vá escrevendo Camponesa, vá escrevendo, que eu sou todo olhos.

As suas propostas, depois.

 

31 Camponesa

A Camponesa deu pulinhos de contentamento no eirado. A ninhada de patos descia a rampa que leva ao bebedouro, com o imperturbável apatanhar da gravilha. A passarada com a indulgência do sol abicava por entre as nesgas dos arbustos. Havia do lado de lá do muro um zumbido de vozes a enxotar a vida alheia e o gato que fazia deslizar a sombra.

Aproveite bem o dia Escritor!

 

32 Escritor

Gosto das suas palavras, Camponesa, que soam a arcaico mas devem ser neologismos: apatanhar, abicar, mais as expressões originais, enxotar a vida alheia. Camponesa estou doido para que leia o meu livro porque quero que me conheça melhor e quer saber o que acha. Deve chegar aí segunda, foi o que me prometeram os Correios. Vá lá acreditar neles...

 

33 Camponesa

Tenho o seu livro entretecido nas mãos. Agora é a estrela que me vai alumiar um pouco do seu contorno. Vou passar cada página com cuidado, como se estivesse à sua frente numa qualquer esplanada da cidade de Lisboa a pesquisar delicadamente o seu interior.

Obrigada pelo livro e pelas palavras caligrafadas.

 

34 Escritor

Aguardo ansiosamente os seus comentários - mas não deixe que a minha ânsia a apresse.

Estou a pensar na estória do blogue... Depois falamos disso.

 

35 Camponesa

Está bem Escritor... aguardo ideias.

Fui pôr uma sopa ao lume.

Agora está aquela luminosidade dourada das seis horas da tarde.

Haverá melhor cenário para encetar uma obra de arte?!

 

 

publicado por Perplexo às 00:30
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1 comentário:
De Ventania a 25 de Junho de 2009 às 00:14
Lindíssima 'estória'. Já vi amores arrebatadores nascerem de distâncias maiores. Parece-me que, à distância, as proximidades são ampliadas.

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