Terça-feira, 17 de Março de 2009

Correio da província I

 Troca de emails... Realidade ou ficção? Onde está a fronteira, qual é a diferença?

 

1 Camponesa

A palavra bota-se no almofariz e faz-se da moenda uma cantiga embebida de outro além.

Repousa alguns parágrafos quiméricos. Nada de especial acontece, até ver. Demora algumas páginas em branco. E então, ai verdes campos de retalhos, onde a emoção é pedra que devolve ao muro a rigidez.

Não Escritor, ainda não li "Pesquisa Sentimental", esteve nos meus olhos numa livraria, à espera que a crise se afogue.

Só o vinha cumprimentar. Felizes dias.

A Camponesa.

 

2 Escritor

Não deveria ser "camponesa", mas sim a "poetisa das alegorias"!

 

3 Camponesa

A Camponesa tem nos tamancos o passo da jorna, que a alma teima em cerzir nas medas de palha. Uma mancheia de milho-rei, Escritor. Cada grão reticências que a planície de uma folha aguarda.

(Obrigada pela resposta)

 

4 Escritor

Não gosto de conversar com pessoas que não sei quem são. É porque gosto de pessoas.

 

5 Camponesa

A Camponesa esfregou os olhos, como quem tira ciscos imaginários.

Escritor, boa-tarde, bons ares!

Venho de novo pisar o seu pátio das sombras, para me desculpar. Realmente as palavras podem nascer num tronco de árvore, num graffiti de urbanismo incandescente, numa linha surda telefónica, no interior de um ramalhete, assim na sombra humana.

Vim porque o seu último livro me deteve numa livraria, porque dias depois ouvi a sua entrevista na Antena 1 e, claro, o expositor do blog.

Escritor aqui lhe deixo as melhores saudações minhotas, onde o verde advém do azul do céu que descai no rio e do amarelo da espiga labutadora.

Como pelas suas palavras depreendo que não mais me responderá, desejo-lhe um caminho ladeado de êxitos.

 

6 Escritor

Camponesa, infelizmente (ou felizmente, vá lá saber) a minha curiosidade é mais forte do que a prudência (ou os pruridos, quem dirá) e não resisto a prosseguir este jogo de escondidas (com o rabo de fora, é o que se vislumbra). 

Isso deve-se em grande parte (ou mesmo parte inteira) à sua escrita pastoral-alegórica pois, como calculará (ou calculou de antemão) não há escritor que resista a uma prosa intrigante, espirituosa e bem adjectivada.

Continue, pois. Não só tem um texto arejado (é o termo!) como se vai revelando aos poucos — provavelmente tudo mentira, mas tem graça mesmo assim.

E espero que leia o meu livro em breve, sim senhor, embora ache que já o deveria ter feito, pois quem vê capas e ouve entrevistas não vê corações.

 

7 Camponesa

A noite caía no eirado, manchando tristemente o espigueiro. A Camponesa esfarelava o pensamento no alguidar de grés. Com os dedos circundava o rebordo como quem desenha a lua, que além a colina quase beija num espreguiçar. Depois, na fundura, encontrava na vinha-d'alhos o cheiro da tasca, onde se enchiam blasfémias em malgas picadas e a língua do presunto se encavalitava na broa. Às vezes a rapaziada, no fole de uma noite, pegava na concertina e inflamavam-se as gargantas. O badalo do sino que bramia lá no adro, alertava-os para a procissão das beatas e sua santa prole.

A Camponesa ouviu o gato a arranhar a porta, o vadio, que rente ao muro vigiava a liberdade nas asas de um pardal. Tapou o alguidar com um pano axadrezado, passou a mão no pêlo malhado e abriu a janela de um livro.

Escritor, obrigada por me aceitar na sua sala de visitas. Prefiro o nicho onde se avista o rio, perto do avarandado.

 

8 Escritor

Alguma vez a camponesa privou com o escritor? Porque este endereço do escritor, não sendo secreto, é privado.

 

9 Camponesa

A Camponesa repuxou a cortina branca da janela da cozinha, para deixar o sol dourar o fio de azeite que caía na panela da sopa. Já a abóbora, a cebola e a batata, que talhou como flores, se dissolviam na fervura. E mais o naco do chouriço a boiar no caldo e exaltar o gosto. Após mais uma mexedela, aproximou a colher de pau do nariz e aprovou a sua a arte num sorriso. Enlaçava de novo o avental, na cintura estreita, quando avistou lá ao fundo, no princípio do caminho poeirento o carteiro Tomé. Acenou-lhe prazenteiro, agitando um envelope acastanhado e recolocou o boné no centro da cabeça, cuja calvície prematura o arreliava. Ela enxugou as mãos no avental, desengonçou o ferrolho que roncou e foi acudir ao mensageiro:

- Bons olhos a vejam Camponesa!- exclamou perdendo o olhar na trança que descia sobre a nudez do ombro.

- Carteiro Tomé, personagem dos meus melhores capítulos, como está?

- Bem, sabendo que da última vez ainda consegui trespassar a ponte levadiça, no dorso do Jaspe, no momento em que labaredas consumiam o castelo dos suspiros. Hoje com outra roupagem, trago-lhe uma missiva sem remetente - com a mão em bandeja entregou-lhe o envelope. - Até mais ver!...

- Aguarde, por favor, desconhece deveras o expedidor?

- Tal como vos disse, ainda na frescura da aurora eu entreabria as castanhas dos olhos, quando um pombo-correio debicou o meu dedo do pé, que abalava pela peúga afora!

- Inteiro desconhecimento, podemos concluir?

- Assim é, lamento.

 

Escritor. Tenha um bom-dia.

 

10 Escritor

Richard Burton foi um explorador inglês do século XIX famoso por várias razões: descobriu a nascente do Nilo, traduziu a Kamasutra e era extremamente irreverente com a formalidade britânica. Um belo dia, num baile, começou a cortejar uma jovem. A mãe, encrespada com a situação, interpelou-o:

— May I ask you sir, what are your intentions towards my daughter?

Ao que ele respondeu, sem pestanejar:

— Strictly dishonest, madam.

Ah, já me esquecia! Talvez a camponesa, minhota e tão versada no vernáculo português, não tenha letras noutros idiomas. Aqui vai:

— Posso perguntar-lhe, senhor, quais são as suas intenções com a minha filha?

— Exclusivamente desonestas, minha senhora.

 

11 Camponesa

Quis scribit bis legit.

 

12 Escritor

Patere quam ipse fecisti legem

 

13 Camponesa

Magister dixit.

 

14 Escritor

So... what's next?

 

15 Camponesa

A Camponesa tem o olhar suspenso naquele traço de avião, que se dilui no céu entardecido. Escritor, não sei como amanhar palavras que cheguem até si e não o façam franzir o sobrolho.  As minhas pegadas:

Minhota... pensamento poético... um escritório o meu ganha-pão... nunca houve rua que nos visse, nem esplanada que nos acolhesse ... cada vez mais curiosa pelo seu livro ... agradecida pela paciência.

 

16 Escritor

Camponesa, poeta, sem arrogância digo — digo até mesmo com humildade — que poderei fazer por si?

Poderei dar-lhe o livro... o prazer que me tem dado a sua prosa bem que merece um presente que, espero, seja do mesmo nível.

O anonimato é imprescindível para si, ou trata-se de uma brincadeira, ou de um jogo que se poderia perder? (Se bem que continuá-lo indefinidamente também  torne a perda inevitável.)

Já pensei que poderá ser alguém que conheço e que assim se diverte... Mas também pensei que isso não tem a mínima importância, uma vez que também me estou a divertir.

 

17 Camponesa

A Camponesa foi ao poço do tempo dos contos profundos, agora recoberto por uma hera matizada de silêncios secretos e uma roseira bravia furta-cor . Ali queda a alinhavar palavras, com um toco de lápis mordiscado, soprou para o ponto arredando-o da vírgula. A planura do papel, amarelecido pelo crestar do Sol, foi testemunha do piscar de olho do espanta-pardais a  acicatar a passarada.

 

 

18 Camponesa

A Camponesa, em diálogo inventado:

- Escritor, uma fotografia pode ser um polvilho do mundo que só alguns enxergam?

- Camponesa, deixe-se de palavras aradas!

- Aguarde, sente-se no degrau onde principia a noite...

- Vá lá, tenho pressa nos olhos e vagar no passo!

- O meu dia começa às seis da manhã, refresco o sorriso, alimento-me, leio, escrevo...

- E?

- Às oito estou no escritório até às quatro e pouco da tarde. Faço um brevíssimo intervalo para almoço.

- Compreendo a nossa incongruência horária.

 

Tenha uma boa-noite, Escritor.

 

publicado por Perplexo às 00:33
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