Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

A certa altura, no Capítulo 24

A varanda do Apolónia-restaurante tem uma estética ampla e depurada. Em primeiro plano o deck de madeira muito largo, como se fosse um passeio à beira-mar, habitado por mesas e cadeiras brancas com guarda-sóis enormes. Depois, como pano de fundo, a perspectiva a perder de vista do Mar da Palha, agitado e reverberante, com a outra margem tão longe que as construções do lado de lá até passam por bonitas. Atrás deles sobem as enormes janelas da cafetaria, cujas proporções poderiam ser de um palácio contemporâneo. Visto daqui, o mundo parece perfeito, a combinar harmoniosamente as belezas naturais e artificiais sem problemas ecológicos ou estéticos.

O movimento do rio é sempre surpreendente; três rebocadores vieram atracar uma barcaça que parece um campo de futebol flutuante feito de chapas de ferro enferrujado. Os barcos impecavelmente limpos, com as suas formas curvas a brilhar ao sol e o cordame encerado, fazem lembrar um quadro hiper-realista. Num dia assim, com o clima macio, a luminosidade perfeita para os olhos, a brisa a aliviar o calor e o rio a perder de vista, Alexandre sente a pele hidratada e a cabeça a carburar em velocidade de cruzeiro – um bocadinho sorna, mas só um bocadinho, depois do almoço nouvelle cuisine fusion a flutuar em doses generosas de vinho branco.

Está com uma mulher bonita, interessante e culta, exactamente o tipo de companhia que se requer nestes altos momentos da vida em que tudo parece estar no sítio certo, incluindo nós próprios.

Falam disto e daquilo, sendo isto as dúvidas do espírito e aquilo a situação no Médio Oriente, passando por estórias de gente que vale uma estória, filmes melhores ou piores, considerações filosóficas, viagens a Marrocos e à China, e tudo o mais de que se pode falar quando as cabeças sincronizam, não há reservas inconvenientes e as incongruências do mundo são levadas para a camada filosófica da estratosfera.

Mariana tem uma visão macro das situações, mas outras situações há em que sabe ser minimalista.

— Uma vez estive no Líbano, num hotel fantástico, que tinha duas piscinas, separadas por uns arbustos, mas via-se tudo de uma para a outra. Na piscina baixa ficavam as mulheres árabes, vestidas dos pés à cabeça, a tomar conta dos filhos. Uma data de mulheres gordas, tapadas com panos escuros, a conversar entre elas e a gritar para as crianças. Na outra ficavam os maridos, com umas russas lindas, umas miúdas maravilhosas de biquini e olhos azuis, altas como estátuas. A namorar, ostensivamente.

 

Mariana conta isto como se não achasse nem mal nem bem. Apenas surpreendida com outra cultura. Mas é da mesma maneira de que fala da nossa.

Será uma qualidade não emitir juízos de valor, ter uma tal neutralidade. Mas não é uma qualidade justa.

O que é isso de ser compreensivo? Devemos julgar as outras culturas pela nossa, pelos nossos valores. Não podemos compreender que haja tipos que atiram ácido à cara das mulheres por uma suspeita de infidelidade — ou por qualquer outra razão.

Mas se não é uma qualidade, isso de não emitir juízos, então o que será? Uma espécie de respeito pelo poder, pela ordem instituída. Pode ser surpreendente, mas não se critica. O poder justifica-se por si só, porque pode. Não é a mesma aceitação dos espiritistas, dos budistas e, pelos vistos, dos conservadores? O que é, é.

Ora, não posso aceitar isso. O que é, não pode ser aceite apenas por ser. Porque se é mal, para os meus valores, então tem de ser combatido. (Ia a dizer “denunciado”, mas essa é a palavra dos fracos; denuncia-se porque não se vai lá à luta; e já se sabe que na nossa sociedade, anestesiada pelo conforto e pela banalização da violência, uma denúncia não tem qualquer resultado prático.)

Mas então, é assustador como ela fala dos absurdos sem o tom crítico. Tem recuo para ver que são absurdos, tem subtileza para ver as incongruências, mas não tem um sentido crítico nem humanista nem equânime.

Ou será que falar no assunto já é uma crítica?

Fico a pensar na cena do hotel no Líbano… Qual era o papel que ela gostaria de ter? As mulheres de djelaba a tomar conta das crianças, não é com certeza. As adolescentes russas lindas, provavelmente.

O papel que ela realmente respeita é o dos homens de negócios árabes.

 

Milhares, milhões de libélulas passam ordeiramente pelo cais, da direita para a esquerda, coordenadas para um destino algures a Norte. Parecem pequenos helicópteros silenciosos, a voar à distância em contra-luz, numa invasão em massa que não se detém com eles nem os incomoda.

Ao lado está sentado um casal de velhos muito bem postos. Viram-nos chegar numa limusina, com o motorista pressuroso a abrir-lhes a porta de boné na mão. O senhor estira-se na cadeira com a cabeça para trás e os olhos fechados, deliciado a absorver o consolo do sol. Belo cabelo branco bem aparado na nuca, e uma camisa de seda amarela por fora das calças e muito aberta no peito – um arranjo que seria desmazelado não fosse o facto do tipo “ter muito bom aspecto”, como diz Mariana. Ela, de costas, toda em tons de bege, com um chapéuzinho de pano muito engraçado, bebe chá. São turistas, sem dúvida. Ricos, assim parecem, e americanos, pois um inglês deste nível jamais usaria tão bela camisa de um modo tão displicente. A satisfação preguiçosa dele e a suavidade do tom da voz dela inspiram ternura.

A senhora tira uma máquina fotográfica do saco e  diz qualquer coisa ao empregado – Alexandre presume que lhe está a pedir para os fotografar, mas o funcionário parece hesitante. O homem levanta-se e pega na máquina; sem pensar, o nosso amigo pergunta-lhes se querem que os fotografe.

— Não, não é preciso — responde ele, antipático, sem um obrigado. Alexandre ainda lhe atira um “não tem de quê”, enquanto o outro faz a fotografia, indiferente aos humanos à sua volta.

— Aqui está um tipo habituado a mandar e que não precisa de pedir nada a ninguém — diz Alexandre, surpreendido com a atitude. — Deve ser Republicano — acrescenta, a pensar naqueles senadores de cabelo branco e ideias ultramontanas que se vêem no noticiário dos Estados Unidos.

— Não seja faccioso. Ele não é latino, não está habituado a manifestações de simpatia espontânea — retruca ela suavemente, disposta a que nada estrague o almoço.

E não estraga. O casal vai-se logo embora, enquanto as libélulas continuam a transmigrar e o sol doura o universo.

publicado por Perplexo às 14:51
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