Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011

Comentário da leitora Maria Eugénia Resende

Não é fácil esquecer este livro, ele fala-nos de um problema que todos nós vivemos, não falo de pesquisas sentimentais ou busca da felicidade, qual Santo Graal da vida, porque esse é que é o Graal, não. Falo-vos isso sim, da solidão que tantos vivem no seu dia a dia e que Alex vive. Ele nunca se deixa iludir, ou melhor ele deixa-se aturdir pelo que vai vivendo, mas ele entrega-se à filofax e tem até vergonha por exemplo das palavras que Delfina lhe dizia enquanto se amavam. No fundo o Alex é quase um puro, ele acredita que ainda encontrará o amor, por isso continua a sua pesquisa sentimental.

Este livro  no qual a cada leitura vou descobrindo novas coisas, palavras nas entrelinhas, vou desfazendo uma teia, tal como a de Penélope que esperou vinte anos pelo seu Ulisses. Ela tecia durante o dia e desfazia à noite, para enganar os pretendentes que queriam o lugar de Ulisses. Também nós, podemos ir desfazendo a teia que José Couto Nogueira deixou, para os que mais fundo lêem, e a possamos desmanchar. 

Através das entrelinhas e das lágrimas de solidão que vou sentindo cair, embora o autor as não escreva, elas estão lá, são gritantes. Isso leva-me a crer que muitos homens que andam de cama em cama, que vão fazendo as suas pesquisas sentimentais, fazem-no porque procuram, não apenas  sexo, não mais uma, mas aquela, "a"...


Neste livro, o autor que nos conta através dos seus escritos registados numa filofax, as suas impressões mais profundas, como que o registo de uma pesquisa,  de um estudo, ele não se entrega, nós é que temos de o encontrar, porque ele está lá, mas não é Alex. Este é apenas o instrumento que José Couto Nogueira usa para nos mostrar que também os homens sofrem de amor e de solidão, e que até percebem muito do universo feminino.

 

Eu vivo para dentro, quem escreveu  o livro, também vive, é muito interiorizado, muito observador. Também Alex  não gosta de comentar as suas aventuras apesar dos incessantes pedidos dos amigos.  Contudo,  eu sou capaz de dizer o que sinto, mesmo aqui neste blog, sem medos, onde vos afirmo que adorei o livro e que ele me causou sensações.  

 

O autor  que está dentro da cabeça de Alex, é sempre parco em pormenores sobre ele, sobre o seu interior...ou melhor, sobre Alex, não confundamos as coisas, ele retrai-se, como que tendo medo de se revelar demais.

 

José Couto Nogueira usa a língua com preciosismo e com metáforas incríveis, como comparar a altura de um prédio a uma torre eólica, por exemplo. Usa muitos vocábulos sobre sexo, a vida de noite, muitas palavras de gíria, mas nunca há vulgaridade na sua escrita. A forma de escrita é diferente de personagem para personagem. Retrata bem a sociedade de uma certa classe média alta lisboeta e não só. E fala-nos da nossa Lisboa e dos seus bairros, com alguns pormenores, mas sem abusar na descrição.

 

Este livro é sobre o percurso de alguém que ama muito e com facilidade...os homens nunca se prendem como as mulheres, como nós mulheres nos prendemos e nos deixamos levar muitas vezes por um engano. As mulheres mesmo no orgasmo são diferentes.  Eles ejaculam porque acima de tudo está neles a capacidade de fecundar os óvulos que elas carregam.  E a ejaculação é simultâneamente o acto de criação e de prazer.

Mesmo os mais velhos têm a capacidade de procriar, embora menor, enquanto que as mulheres têm a tal capacidade de criação, muito mais restrita. Essa é para mim a maior diferença que existe entre o homem e a mulher.

No acto de amor, as mulheres precisam de estimulo, de carícias, precisam sentir o crescendo dentro delas...é algo uterino, que no clímax do amor, ou do sexo como muitos dizem, lhes provoca um misto de prazer e de dor na barriga, precisamente onde se encontra o útero. Já ao homens não...é tudo muito mais fácil e depende apenas do sangue nos corpos cavernosos do seu sexo.

 

Este livro, que releio de tão bem escrito, é uma mensagem do autor, é quase um grito de solidão, porque  sem dar por isso, ele chora nas entrelinhas, ele fica só, nem podemos considerar que seja predador, obcecado por sexo, não.  Ele faz uma busca, ele procura  por todos os meios, o amor e a felicidade. Como eu o compreendo. Quem não o procura?

 

O livro tem muito de sexo explícito e podem crer,  provoca algumas sensações físicas, dadas as descrições do autor, sobre o corpo feminino, sobre o acto em si.  Contudo,  é um livro que nunca é vulgar. Pelo contrário, apesar de falar sobre um assunto que poderia tornar-se vulgar, como muitos outros que tenho lido, este não, por vezes devo dizer-vos que é sublime.

 

O autor retrata os ambientes e as pessoas, como se estivéssemos a ver uma fotografia. Ou ainda melhor, como se  estivesse a escrever teatro e cada cena que vamos lendo é um cenário, descrito ao pormenor, ou a descrição de um quadro que o pintor vai pintando,  cada pincelada é sublime na palavra de Couto Nogueira. 

Adoro a maneira como descreve o corpo feminino e as alusões que faz, sobre o sexo da mulher e o liga à  origem das coisas, o nascer, o início de tudo. Acho fantástico como ele consegue ser  tão real e belo ao mesmo tempo.

Demonstra um enorme conhecimento do autor pelo ser feminino, muitas vivências, muitos anos de procura desse tal amor... são muitas experiências que certamente viveu, pelo menos algumas,  e refiro viveu porque as descrições são extremamente sentidas, são pungentes, palpáveis e o autor revela-se em algumas de forma quase explícita,  sem dar por isso. Não quero dizer que seja auto biográfico, não, isso não, demonstra isso sim é que o autor já viveu muito e dessas experiências e da sua muita capacidade criativa, deu forma perfeita a Alex, que pode ser um entre muitos que por aí andam pela sociedade.

 

Alex não é amorfo ou burro,  pelo contrário, é muito inteligente e é isso que faz com o que livro não seja absolutamente nada vulgar.  Mas não só, o percurso dele pelo livro, mostra-nos um homem de carácter que apenas ama demais, ele deixa-se levar pelo prazer e pela necessidade de o ter, pelo diferente, mesmo correndo perigos...ele está sempre a correr perigos.

O que tem piada é  que na minha primeira leitura, achei que não havia nada de pessoal do Couto Nogueira, engano meu, hoje saboreio cada linha e releio, volto atrás e encontrei-o.  Ele está lá, bem no fundo, porque ele procura o amor e a felicidade como qualquer um de nós. A minha primeira recensão deste livro, é absolutamente diferente desta, porque este livro não pode ser lido levianamente, isto é, de forma rápida e sôfrega como fiz a primeira leitura. Tem de se saborear e ler-se devagar.

 

Adorei e estou a adorei relê-lo...certamente não será a última vez, leio muitas vezes os livros que me dizem muito, e este, é certamente um deles.

publicado por Perplexo às 09:44
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