Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Entrevista ao programa "Acontece"

 Pois é, o "Acontece", aquele programa da RTP2, não morreu; ou melhor, morreu e ressuscitou na rádio. Segundo eles, passa em centenas de estações por todo o país. Espero que sim, pois entrevistaram-me um dia destes.

 

 


 

publicado por Perplexo às 17:19
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Terça-feira, 17 de Março de 2009

Correio da província I

 Troca de emails... Realidade ou ficção? Onde está a fronteira, qual é a diferença?

 

1 Camponesa

A palavra bota-se no almofariz e faz-se da moenda uma cantiga embebida de outro além.

Repousa alguns parágrafos quiméricos. Nada de especial acontece, até ver. Demora algumas páginas em branco. E então, ai verdes campos de retalhos, onde a emoção é pedra que devolve ao muro a rigidez.

Não Escritor, ainda não li "Pesquisa Sentimental", esteve nos meus olhos numa livraria, à espera que a crise se afogue.

Só o vinha cumprimentar. Felizes dias.

A Camponesa.

 

2 Escritor

Não deveria ser "camponesa", mas sim a "poetisa das alegorias"!

 

3 Camponesa

A Camponesa tem nos tamancos o passo da jorna, que a alma teima em cerzir nas medas de palha. Uma mancheia de milho-rei, Escritor. Cada grão reticências que a planície de uma folha aguarda.

(Obrigada pela resposta)

 

4 Escritor

Não gosto de conversar com pessoas que não sei quem são. É porque gosto de pessoas.

 

5 Camponesa

A Camponesa esfregou os olhos, como quem tira ciscos imaginários.

Escritor, boa-tarde, bons ares!

Venho de novo pisar o seu pátio das sombras, para me desculpar. Realmente as palavras podem nascer num tronco de árvore, num graffiti de urbanismo incandescente, numa linha surda telefónica, no interior de um ramalhete, assim na sombra humana.

Vim porque o seu último livro me deteve numa livraria, porque dias depois ouvi a sua entrevista na Antena 1 e, claro, o expositor do blog.

Escritor aqui lhe deixo as melhores saudações minhotas, onde o verde advém do azul do céu que descai no rio e do amarelo da espiga labutadora.

Como pelas suas palavras depreendo que não mais me responderá, desejo-lhe um caminho ladeado de êxitos.

 

6 Escritor

Camponesa, infelizmente (ou felizmente, vá lá saber) a minha curiosidade é mais forte do que a prudência (ou os pruridos, quem dirá) e não resisto a prosseguir este jogo de escondidas (com o rabo de fora, é o que se vislumbra). 

Isso deve-se em grande parte (ou mesmo parte inteira) à sua escrita pastoral-alegórica pois, como calculará (ou calculou de antemão) não há escritor que resista a uma prosa intrigante, espirituosa e bem adjectivada.

Continue, pois. Não só tem um texto arejado (é o termo!) como se vai revelando aos poucos — provavelmente tudo mentira, mas tem graça mesmo assim.

E espero que leia o meu livro em breve, sim senhor, embora ache que já o deveria ter feito, pois quem vê capas e ouve entrevistas não vê corações.

 

7 Camponesa

A noite caía no eirado, manchando tristemente o espigueiro. A Camponesa esfarelava o pensamento no alguidar de grés. Com os dedos circundava o rebordo como quem desenha a lua, que além a colina quase beija num espreguiçar. Depois, na fundura, encontrava na vinha-d'alhos o cheiro da tasca, onde se enchiam blasfémias em malgas picadas e a língua do presunto se encavalitava na broa. Às vezes a rapaziada, no fole de uma noite, pegava na concertina e inflamavam-se as gargantas. O badalo do sino que bramia lá no adro, alertava-os para a procissão das beatas e sua santa prole.

A Camponesa ouviu o gato a arranhar a porta, o vadio, que rente ao muro vigiava a liberdade nas asas de um pardal. Tapou o alguidar com um pano axadrezado, passou a mão no pêlo malhado e abriu a janela de um livro.

Escritor, obrigada por me aceitar na sua sala de visitas. Prefiro o nicho onde se avista o rio, perto do avarandado.

 

8 Escritor

Alguma vez a camponesa privou com o escritor? Porque este endereço do escritor, não sendo secreto, é privado.

 

9 Camponesa

A Camponesa repuxou a cortina branca da janela da cozinha, para deixar o sol dourar o fio de azeite que caía na panela da sopa. Já a abóbora, a cebola e a batata, que talhou como flores, se dissolviam na fervura. E mais o naco do chouriço a boiar no caldo e exaltar o gosto. Após mais uma mexedela, aproximou a colher de pau do nariz e aprovou a sua a arte num sorriso. Enlaçava de novo o avental, na cintura estreita, quando avistou lá ao fundo, no princípio do caminho poeirento o carteiro Tomé. Acenou-lhe prazenteiro, agitando um envelope acastanhado e recolocou o boné no centro da cabeça, cuja calvície prematura o arreliava. Ela enxugou as mãos no avental, desengonçou o ferrolho que roncou e foi acudir ao mensageiro:

- Bons olhos a vejam Camponesa!- exclamou perdendo o olhar na trança que descia sobre a nudez do ombro.

- Carteiro Tomé, personagem dos meus melhores capítulos, como está?

- Bem, sabendo que da última vez ainda consegui trespassar a ponte levadiça, no dorso do Jaspe, no momento em que labaredas consumiam o castelo dos suspiros. Hoje com outra roupagem, trago-lhe uma missiva sem remetente - com a mão em bandeja entregou-lhe o envelope. - Até mais ver!...

- Aguarde, por favor, desconhece deveras o expedidor?

- Tal como vos disse, ainda na frescura da aurora eu entreabria as castanhas dos olhos, quando um pombo-correio debicou o meu dedo do pé, que abalava pela peúga afora!

- Inteiro desconhecimento, podemos concluir?

- Assim é, lamento.

 

Escritor. Tenha um bom-dia.

 

10 Escritor

Richard Burton foi um explorador inglês do século XIX famoso por várias razões: descobriu a nascente do Nilo, traduziu a Kamasutra e era extremamente irreverente com a formalidade britânica. Um belo dia, num baile, começou a cortejar uma jovem. A mãe, encrespada com a situação, interpelou-o:

— May I ask you sir, what are your intentions towards my daughter?

Ao que ele respondeu, sem pestanejar:

— Strictly dishonest, madam.

Ah, já me esquecia! Talvez a camponesa, minhota e tão versada no vernáculo português, não tenha letras noutros idiomas. Aqui vai:

— Posso perguntar-lhe, senhor, quais são as suas intenções com a minha filha?

— Exclusivamente desonestas, minha senhora.

 

11 Camponesa

Quis scribit bis legit.

 

12 Escritor

Patere quam ipse fecisti legem

 

13 Camponesa

Magister dixit.

 

14 Escritor

So... what's next?

 

15 Camponesa

A Camponesa tem o olhar suspenso naquele traço de avião, que se dilui no céu entardecido. Escritor, não sei como amanhar palavras que cheguem até si e não o façam franzir o sobrolho.  As minhas pegadas:

Minhota... pensamento poético... um escritório o meu ganha-pão... nunca houve rua que nos visse, nem esplanada que nos acolhesse ... cada vez mais curiosa pelo seu livro ... agradecida pela paciência.

 

16 Escritor

Camponesa, poeta, sem arrogância digo — digo até mesmo com humildade — que poderei fazer por si?

Poderei dar-lhe o livro... o prazer que me tem dado a sua prosa bem que merece um presente que, espero, seja do mesmo nível.

O anonimato é imprescindível para si, ou trata-se de uma brincadeira, ou de um jogo que se poderia perder? (Se bem que continuá-lo indefinidamente também  torne a perda inevitável.)

Já pensei que poderá ser alguém que conheço e que assim se diverte... Mas também pensei que isso não tem a mínima importância, uma vez que também me estou a divertir.

 

17 Camponesa

A Camponesa foi ao poço do tempo dos contos profundos, agora recoberto por uma hera matizada de silêncios secretos e uma roseira bravia furta-cor . Ali queda a alinhavar palavras, com um toco de lápis mordiscado, soprou para o ponto arredando-o da vírgula. A planura do papel, amarelecido pelo crestar do Sol, foi testemunha do piscar de olho do espanta-pardais a  acicatar a passarada.

 

 

18 Camponesa

A Camponesa, em diálogo inventado:

- Escritor, uma fotografia pode ser um polvilho do mundo que só alguns enxergam?

- Camponesa, deixe-se de palavras aradas!

- Aguarde, sente-se no degrau onde principia a noite...

- Vá lá, tenho pressa nos olhos e vagar no passo!

- O meu dia começa às seis da manhã, refresco o sorriso, alimento-me, leio, escrevo...

- E?

- Às oito estou no escritório até às quatro e pouco da tarde. Faço um brevíssimo intervalo para almoço.

- Compreendo a nossa incongruência horária.

 

Tenha uma boa-noite, Escritor.

 

publicado por Perplexo às 00:33
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Correio da província II

 19 Escritor

A camponesa é uma miragem, uma espécie de tentação de outros tempos em que as coisas eram mais simples, os sentimentos mais claros e as vivências menos complexas.

A Camponesa está longe, lá nos campos do Norte, afastada das tecnologias inexoráveis, quase impossível de ver,tocar, cheirar. Mas existe, está.

A Camponesa é uma tentação.

 

20 Camponesa

Na laje que permeia o olival, estendeu um lencinho de cambraia e sentou-se para pratear as letras, para no pontilhado do Sol imaginar o chão que o pintor concedeu ao céu.

A Camponesa agradece o momento.

Escritor, saudações minhotas.

  

21 Camponesa

A canção jorra da fonte. A este intervalo de luz em que os olhos amainam sobre a seda na pedra é felicidade.

A Camponesa tem um certo rubor na face. Obrigada Escritor.

 

22 Escritor

Com gripe, murcho, ao lado dos cágados que mergulham no aquário, o Escritor pesquisa os mapas. Esta terra pequena… Cá está. Zoom na aldeia. Ruas várias, nenhuma calçada com tal nome. Mas está lá, com certeza. Aqui, algures, a Camponesa sentada em frente de um computador, o telefone, os papéis, o escritório com divisórias sintéticas, os olhares dos escriturários, recibos e facturas...

O Escritor sente vontade de voar para a aldeia, levado pelas asas da aventura, o Norte na bússola... 

Pensa. O Escritor não escreve assim. Tem um texto urbano, rápido. É a Camponesa, o texto novecentista da Camponesa que o faz escrever assim.

Como é romântico, tanta distância!

O Escritor olha para a fotografia. Lá está a Camponesa sorridente, feliz, na natureza, com a camisa de jeans entreaberta, os brincos, o brilho. A Camponesa irradia um brilho fantástico, como uma estrela fosforecente ("estrela fosforecente" está no livro, no final, é uma explicação...)

Tanta distância. Tanta vontade. 

É uma química. 

O Escritor julgava que a química só acontecia na proximidade. Nunca a tinha visto a funcionar à distância. Ou será uma ilusão?

Mas alguma coisa deverá existir. O que terá levado a Camponesa a procurá-lo entre tantos livros, tantos escritores? 

O que terá levado à existência de uma Camponesa nesta aldeia, ao brilho fosforecente, ao interesse inusitado?

Tanta distância, tantos mistérios.

A trama adensa-se.

 

23 Camponesa

Vou pegar na "trama adensa-se"; acha que há uma ficção que quer povoar papéis desérticos? As personagens principais:  o Escritor e a Camponesa. Como encetaria o filme de um e o bordado de outra? Qual a sinopse?

Escritor, abriu a porta à gripe? Não acautelou o ferrolho?

Saudações minhotas.

 

24 Escritor

Como é que um Escritor faz para não se apaixonar perdidamente por uma pessoa que não conhece e nunca viu, e com quem dificilmente pode privar? Como faz? Pois,considera tudo como um sonho... Uma estrela vinda pelo espaço internético, um brilho na imaginação do Escritor, que é fertil e desenfreada...

 

25 Camponesa

A Camponesa resvalou o olhar pelo canteiro das azáleas. Aprendeu no macramé verde e rosa a jardinar com letras, a regar com lágrimas e a podar com os dedos. Agora engenha com o Escritor um tapete voante.

  

 26 Escritor

Camponesa, porque não faz um blogue? O seu texto tem uma textura e um sabor que com certeza deixaria muita gente a pairar pelas paisagens…

 

27 Camponesa

A água buliçosa lava as pedras do regato e num murmúrio enternece a boca da Camponesa do Minho.

Escritor, como está? E a gripe?

Tal como o paladar, também as letras gostam de experimentar novos condimentos.

Escritor, faça brotar o blog, se quiser, o cenário é seu, os textos nossos!

O blog seria uma patuscada cidade/campo, diálogo embriagante entre Escritor e Camponesa. Pense nisso.

 

28 Escritor

Bela Camponesa

Lá longe na raia, tão apetecível e tão distante...

Podíamos fazer um blogue, não me sinto habitilitado a fazê-lo com a menina, porque os nossos textos são muito diferentes. A Camponesa deve e merece ter um blog só seu. Se por acaso não se sente encorajada a construi-lo, o que o Escritor pode fazer é construi-lo para ela — mas depois será só ela a inserir as suas pérolas.

 

29 Camponesa

Os meus dedos de espiga tangem no adufe da noite, como se fosse a lombada em cabedal coçado de um livro. Desconheço o paradeiro do Escritor, logo hoje que a terra está em pousio e a massa do pão a levedar. Tenho o mocho onde me assento perto da bocarra da lareira, já acamei lenha suficiente para me aquentar. O caderno de folhas salpicadas de farinha e água está aberto no meu regaço.

Sabe Escritor, gostava de lhe tecer uma história, tal como o vestido domingueiro da moça que vai até ao adro da igreja e despe os olhos de quem a vê passar. Por dentro dos sentidos, já alinhavo pétalas de papoilas, para brotarem palavras voluptuosas, e de gardénias para primaverar o ar; malmequeres em travessões para o cabelo trazem à lembrança laivos de sol a raspançar madrugadas, e cravos botam asas às bordas para libertar o verbo. Tudo isto na folha do caderno salpicada de farinha e água e um graeiro de sal, não convém esquecer.

Hoje quando vinha da lida, reparei no pechisbeque a rebuçar o planalto da mulher que amamenta a vida e ela sentada na traseira da carroça, com a pernas da cor de um beijo a tesourar a sumaúma que o vento abelhudo empurrava.

Escritor, tenha uma noite tranquila.

 

30 Escritor

Aqui estou eu Camponesa, atento e agradecido

Mal consigo acompanhar a sua prosa — tão rico o vocabulário, tão alienígenas as expressões. E como ler Aquilino, é preciso um dicionário, mas os dicionários, sempre a modernizar-se e a universalizar-se, não trazem estas coisas...

O seu e-mail chegou como uma pomba branca, a clarear-me a noite. Vá escrevendo Camponesa, vá escrevendo, que eu sou todo olhos.

As suas propostas, depois.

 

31 Camponesa

A Camponesa deu pulinhos de contentamento no eirado. A ninhada de patos descia a rampa que leva ao bebedouro, com o imperturbável apatanhar da gravilha. A passarada com a indulgência do sol abicava por entre as nesgas dos arbustos. Havia do lado de lá do muro um zumbido de vozes a enxotar a vida alheia e o gato que fazia deslizar a sombra.

Aproveite bem o dia Escritor!

 

32 Escritor

Gosto das suas palavras, Camponesa, que soam a arcaico mas devem ser neologismos: apatanhar, abicar, mais as expressões originais, enxotar a vida alheia. Camponesa estou doido para que leia o meu livro porque quero que me conheça melhor e quer saber o que acha. Deve chegar aí segunda, foi o que me prometeram os Correios. Vá lá acreditar neles...

 

33 Camponesa

Tenho o seu livro entretecido nas mãos. Agora é a estrela que me vai alumiar um pouco do seu contorno. Vou passar cada página com cuidado, como se estivesse à sua frente numa qualquer esplanada da cidade de Lisboa a pesquisar delicadamente o seu interior.

Obrigada pelo livro e pelas palavras caligrafadas.

 

34 Escritor

Aguardo ansiosamente os seus comentários - mas não deixe que a minha ânsia a apresse.

Estou a pensar na estória do blogue... Depois falamos disso.

 

35 Camponesa

Está bem Escritor... aguardo ideias.

Fui pôr uma sopa ao lume.

Agora está aquela luminosidade dourada das seis horas da tarde.

Haverá melhor cenário para encetar uma obra de arte?!

 

 

publicado por Perplexo às 00:30
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Segunda-feira, 9 de Março de 2009

Uma leitora comenta por Messenger

Leitora: É só para lhe dizer que já li tudo... e aquela cena final da despedida está fortíssima...

O final é muito intenso.

 

Autor: Sim, sim. Eu gosto é do parágrafo final. Depois da despedida propriamente dita, ou seja, depois de acabar a acção.

 

Leitora: Realmente colocou grande tónica nisso. Não esperava.

 

Autor: Já estava escrito há anos, mais coisa menos coisa.

 

Leitora: Sabe que me fez chorar? Mas não diga a ninguém.

 

Autor: Não digo a ninguém, mas sinto-me muito orgulhoso! Gosto de fazer as mulheres chorar... Estou a brincar, claro.

 

Leitora: Não sei explicar porquê, mas tocou numa tecla sensível

 

Autor: Gosto de saber que toquei numa tecla sensível. É essa a ambição de todos os escritores, acho eu.

 

Leitora: Penso que criou uma personagem masculina profundamente feminina, que me fez sentir compreendida.

 

Autor: É a segunda pessoa que me diz isso – hoje.

Será que o Alex é gay?

 

Leitora: Já chega de mimo! Mas, a sério, surpreendeu-me e muito pela positiva. Todo caladinho...parecia que não partia um prato e estava lá a escrever um livro interessantíssimo.

 

Autor: Quer dizer que estava à espera de uma coisa desinteressante... Escrever um livro é partir muitos pratos. Muitos.

 

Leitora: Nãoooooooo, nada disso. Apenas me surpreendeu.

 

Autor: Fica cliente, então?

 

Leitora: Gostei muito mais deste do que dos outros dois.

 

Autor: Eu acho este mais bem acabado. Mais polido, digamos.

 

Leitora: Agora tem de mostrar mais o que vale.

 

Leitora: Espere aí um ano e meio ou dois que eu volto já...

 

Leitora: E tem imensa reflexão explícita.

 

Autor: O que é uma reflexão explícita?

 

Leitora: Penso que muitas vezes as ideias surgem nos livros em texto latente. Neste caso o Zé optou por as explicitar.

 

Autor: Agora... Não sei o que é nem reflexão explícita nem texto latente.

 

Leitora: Mas no final, curiosamente, as explicações ganham menos peso em relação ao desenrolar da acção. Mas os escritores por vezes servem-se de recursos indirectos para dar "mensagens".

 

Autor: Claro.

 

Leitora: No seu livro, nos tais momentos de reflexão, as explicações, ou seja, as ideias principais, são apresentadas explicitamente.

 

Autor: Obrigado pelo elogio. Mas espero que também tenha achado inconveniente. Adoro ser inconveniente, provocador e incómodo.

 

Leitora: Você é terrível Que pena não ser o delicioso Alexandre.

 

Autor: Pois, mas realmente não sou. Acho o rapaz um bocado parvo. E um careta.

 

Leitora: Agora até embirra com a personagem que criou. Só você mesmo.

 

Autor: Não embirro... apenas não me identifico.

 

Leitora: Em determinados momentos também achei que sim. Para homem, exigia-se um pouco mais de força, sem dúvida.

 

Autor: Ora aí está. Se bem que, com mulheres daquelas, não lhe ia servir de muito, parece-me.

 

Leitora: A Mariana era osso difícil de roer. Coitada, ela própria não se aguentava.

 

Autor: E a Delfina também. De uma maneira completamente diferente. E isso é que tem graça — as duas tão diferentes, as duas tão impossíveis.

 

Leitora: A Delfina ainda era pior, mas como tinha menos força ficava mais soft.

 

Autor: Mas no final (a Delfina) porta-se como um homem: a minha profissão está acima do nosso amor...

 

Leitora: Ninguém é totalmente assim. Nem a Mariana, com o seu ar quase implacável.

 

Autor: Olhe que a Delfina, com aquele ar de graciosidade, não hesitou no que lhe interessava. Agora, a Mariana, acho que não consegui equilibrar tão bem a personalidade.

 

Leitora: Com a Mariana, ia-me dando uma coisa má.

 

Autor: Devia ter um ar menos implacável... Mas aí não ficava tão diferente da Delfina — isto não é fácil!

 

Leitora: Acaba por se tornar menos verosímil. Uma pessoa muito fria.

 

Autor: A verosimilhança é o mais complicado, quando nos metemos a inventar em profundidade. Uma personalidade é muito complexa e difícil de fabricar no papel.

 

Leitora: A interpretação que fica é que o final apenas se justifica porque  provavelmente ela tinha problemas consigo própria.

 

Autor: Pois, a minha ideia era por aí: uma mulher cujo problema era não ter problemas, e outra cujo problema era ela.

 

Leitora: Considero que o fez bem, conseguimos entender bem as diferenças . A mesma coisa com os amigos e as suas diferentes respostas e abordagens.

 

Autor: Os amigos, quis fazer uma espécie de anjo bom e anjo mau, mas num conceito mais contemporâneo, em que a bondade e a maldade não são tão distintas.

 

Leitora: Aquele seu Gil é um querido. É mesmo branco ou preto.

 

Autor: Ele é um bocado condescendente demais, tipo não te rales que está tudo bem. Enquanto o Russo é o oposto, nunca está nada bem. Não sei se ficou assim, mas era essa a ideia inicial.

 

Leitora: Acho que o colocou bem, no sentido do que deve ser um amigo, que defende sempre os amigos.

 

Autor: Sim, mas os amigos realmente não ajudam, como o próprio Alexandre repara É o que eu acho: há coisas que, por mais que os amigos queiram ajudar, não podem. Só servem para estabelecer confusão no espírito. Como quando estamos nos cuidados intensivos. Digamos que os amigos consolam, mas não ajudam.

 

Leitora: Pois principalmente quando se instala o vazio dentro de nós... Mas, pronto, agora tenho pena do livro ter acabado. Estava mesmo a gostar.

 

Autor: Já lhe disse; é só esperar uns dois anos que eu faço outro. Mas não vai ser romântico como este. O tema do romantismo fica encerrado. Não tenho mais nada a dizer sobre o assunto.

 

Leitora: Oh, que pena!

 

Autor: Então, este já tem teses de dão para anos de terapia...

 

Leitora: Penso que há sempre aspectos a acrescentar à volta do tema.

 

Autor: Sim, pode-se sempre acrescentar, mas o essencial que eu queria dizer, está dito.

 

Leitora: (Sim, sim, mostrou bem o que é o amor e o que é a perda. Então e o próximo?

 

Autor: O tema do próximo são os dois sentimentos nacionais mais prevalecentes: inveja e arrogância. Como o "Orgulho e Preconceito" da Jane Austen, que são os sentimentos prevalecentes entre os ingleses.

 

Leitora: Sabe que eu já tinha pensado nisso, mas numa abordagem histórica e política.

 

Autor: Mas é isso mesmo. Os meus romances são sempre políticos e históricos — só que a História é contemporânea.

 

 

publicado por Perplexo às 14:22
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Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Entrevista na Pública

 No sábado, dia 28 de Fevereiro, saiu uma entrevista no Sol ("Entrevistas Improváveis", pág. 2) que não reproduzimos aqui porque trata de política, um assunto que não tem a ver com o livro.

No domingo, 29, saiu uma entrevista com Ana Sousa Dias, na Pública, que está aqui.

Clique na imagem para ver em tamanho grande.

 

 

publicado por Perplexo às 18:11
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Terça-feira, 3 de Março de 2009

O comentário de Aleksandra Dziuba

 Dos mais de quinhentos alunos que frequentaram os meus cursos de Escrita Criativa, creio que Aleksandra foi quem mostrou mais talento e maturidade na escrita, apesar de ter apenas 21 anos. Por isso resolvi pedir-lhe um comentário ao livro, ao qual Aleksandra acrescentou algumas impressões sobre o lançamento.

 

            O que inicialmente poderia assustar os mais cépticos – outra chatice sentimentalista nãããoo! –, é na verdade um título bem escolhido e que faz todo o sentido, unindo a quase investigação científica às emoções mais humanamente falíveis: uma perspectiva moderna da mais velha questão do mundo. Deparamo-nos com a busca pelo Santo Graal dos sentimentos, numa visão claramente masculina, apesar de não fazer justiça ao livro falando nas tradicionais diferenças entre sexos, pois neste assistimos a uma deliciosa inversão de poder. A mesmice típica dos romances que abordam o amor florido e todo-o-poderoso também não me atrai – deve ser uma coisa de Alexandres –, mas este vence pela originalidade.

            Curiosamente, a minha primeira impressão em termos de conteúdo roçou a percepção de um desfilar de pêgas pelas calorosas mãozinhas do protagonista, mas com uma introspecção mais profunda no sentido de ultrapassar a superficialidade deste trauma inicial, pareceu-me ser apenas a conservadora fada perlimpimpim num corpo de hipopótamo em mim a falar. Que azar, com tantas mulheres mais interessantes no livro, modernas, independentes, deslumbrantes, fui logo identificar-me com a mais sem-sal! Agora sim, consciente dessa falha pessoal, admito ser esta uma abordagem curiosa, uma perspectiva de futuro incerto e repleto de excitantes possibilidades. Um olhar muito actual, tanto para as vivências modernas, como na temática descritiva das mulheres, hoje fortes e independentes: uma inversão de papéis que já merecia uma resposta masculina – e que muito divertiu o meu lado mais feminista. Outra leitura interessante teriam sido apenas os próprios apontamentos do Alexandre, em que o processo meticuloso de armazenamento das cogitações e eventos de referência constitui um método de pesquisa fascinante, cujo apanhado na narrativa representa um toque de mestre e um acesso privilegiado à intimidade do protagonista. Parece-me um tema ingrato, dificílimo de abordar, quer fantasiado, quer pela auto-escavação sentimental. Uma excelente forma de terapia para o autor, uma interessantíssima leitura para nós. Apesar da natural dificuldade em abordar um tema já tão explorado, esmiuçado até à mesmice novelesca, a narrativa não perde a graça, tanto pelos dotes literários do autor – já mencionei que o admiro muito? – como pela capacidade descritiva que vou chamar fotográfica – de facto, a melhor parte de não perceber nada de crítica literária nem ter altas pretensões, é que posso servir-me de expressões idiotas a gosto. Pois bom ângulo, sr. Fotógrafo. Enquadramento emocionante. Cru, real, puro e duro.

            Irrompem expressões fantásticas, e são dissecadas minudências da vida como o vazio da ausência alheia, a necessidade do outro como prolongamento pessoal, a segurança da presença alheia mesmo quando apenas implícita, a por vezes difícil amizade, as contradições emocionais, a infinidade de possibilidades do desconhecido, as relações modernas, o arrebatamento que contrasta com a estabilidade do porto seguro. E as novas mulheres, claro. Pois se as mulheres são esfínges e tentar resolver o enigma só aumenta a confusão, excelente tentativa.

            Não era minha intenção exceder-me no comentário – ó doce ironia –, nem ambicionar a escabrosa tarefa de resumir os pontos altos do livro, ou mesmo espremer exemplos rebuscados para classifica-lo, tudo para procurar justificar o facto de ter apreciado a sua leitura. Gostei, e o resto é conversa, certo? Apenas gostaria de reforçar os meus parabéns ao autor pelo interessantíssimo livro – note-se a boa dose de saudável inveja assumida –, e sugeri-lo aos que ainda não tiveram o prazer de o ler. Um must.

 

            Quanto ao lançamento do livro, foi uma hora pequenina, e tinha essa vontade sádica de ouvir gemer e esbracejar mais um pouco a propósito deste novo filho lançado ao mundo, etapa essa que desconheço mas que me petrifica até ao ridículo. Provavelmente o curso deixou-me mal habituada, ou talvez tenha sido a nostalogia do final deste, mas tinha ficado a ouvir mais explicações, mais opiniões, alguns conselhos, tentativas de análise, enfim, os disparates possíveis que me pudessem ajudar a entender melhor este mundo e o próprio livro na opinião do seu autor. Mas entendo perfeitamente as urgências do tempo em que vivemos, e não retiro os parabéns iniciais também pela organização do lançamento, assim como pelo agradável convívio proporcionado. Depois da ânsia para ouvir falar o professor, careci de coragem para enfrentar as feras, a tal diversidade de espécimens a acotovelar-se em filinha interminável para sorver mais um pedaço. Mas arrrependi-me, independentemente de já ter o livro assinado. Então não é que o livro tem muitas páginas e arranjava-se sempre espaço para outra dedicatória!?

            E com a referência ao curso acabo, com um agradecimento infinito pelas doutas palavras. Ao professor, espero voltar a vê-lo, quiçá numa outra formação ou mesmo no lançamento da obra seguinte, e espero que continue a preencher as nossas ocas e inocentes cabecitas ávidas de novidades com sábios conhecimentos. E bons livros.

 

Aleksandra Dziuba

publicado por Perplexo às 12:49
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