Traz apenas um diálogo:
A Camponesa foi à cidade no safanão da camioneta saudar o Escritor. O Abril vestia-se com as cores da Primavera. Trazia na maleta um papelinho dobrado com cuidado, não lhe fossem afrouxar as palavras na boca naquele momento de aperto. Assim e após o intróito descomedido em exclamações e reticências, que é como quem diz, em cumprimentos e espanto, ela abalançou-se:
- Escritor, quero dar-lhe um beijo, daqueles que só as palavras descrevem e essas encontrei-as no interior do seu livro. Na intimidade de um quebra-luz vi maremotos na sombra de corpos fogosos; escutei sons de fúria, de solidão e esperança; senti uma vida supérflua e dourada; percebi a coragem que só existe na vontade de ser feliz; o Alexandre, a Delfina, a Mariana, a Patrícia, o Gil e o Russo habitam o meu imaginário em páginas que são varandas urbanas. Parabéns Escritor e obrigada pela obra de arte que aos meus olhos chegou em felizardos vagares.
- Camponesa, posso beijar-lhe as mãos?
Terminei a "Pesquisa Sentimental". Parabéns! Dedilha uma nova obra de arte.
Rebobinei. Daria um filme. A Delfina e a Mariana estelantes; o Gil e o Russo abelhudos mas amigos; a Patrícia, qualquer actriz empertigada do nosso Portugal; o Alexandre muito ao estilo da personagem principal do Notting Hill, interpretado por Hugh Grant; preferia que a Mariana tivesse sido acometida pela verdade de Júlia Roberts (Anna Scott) nas últimas páginas, as que os olhos pretendem mudar o rumo.
Uma das páginas mais sensuais a 343, sem dúvida.
No dia 2 de Março, na Antena 3, Nuno Markl conversa com José Couto Nogueira a propósito do "Pesquisa Sentimental", e com Mickael d Oliveira e John Romão, do grupo de teatro Colectivo 84.
De Jonas a 29 de Março
Olá
Antes de mais deixe-me ser simpático e dizer-lhe que estou a gostar do livro (já tinha gostado do Táxi e, mais ainda, do Casa Na Praia). Ok, agora já posso ser desagradável ...
Estou a cerca de 2/3 (comecei antes de ontem), na primeira cena de sexo do Alex com a executiva e ocorreu-me que nunca se falou de preservativos no livro. (se calhar o assunto ainda vai aparecer, e ai o meu comentário deixa de ter sentido.) Eu tenho 43 anos e sempre vivi em Lisboa por isso sou da “geração” do Alex. O seu livro trata de uma realidade “diferente” da minha, isto é, eu frequentei pouco essa noite lisboeta e os meus amigos tinham conversas diferentes das retratadas no seu livro. Mas mesmo assim (todos nós também investíamos energias e tempo em “caçar” tipas) o assunto do preservativo é e foi uma constante. Mesmo que nas alturas apropriadas não o usássemos (como o Alex e Cª), no mínimo reflectíamos sobre a sua (não) utilização. Acho que nem vale a pena eu referir-lhe a “importância” do preservativo na postura dos homens/mulheres face ao sexo; de certeza que a conhece bem (não estou a falar apenas de sida, estou a falar de machismo, medo de ofender, medo de decepcionar, etc.) Andar com um preservativo na algibeira era como andar com a carteira (estou a exagerar um pouco, mas não ando muito longe da verdade). Que agora é assim, é um facto. Mas mesmo nos anos 90 (é ai que a acção se passa não é?) já era um hábito comum. Não era a sua realidade? Não a acha relevante?
Afinal não era para ser desagradável, era apenas uma dúvida (bem, se calhar uma critica). Não sei como colocar esta mensagem a não ser como comentário de um post. Escolhi este como podia ter escolhido outro. Era bom que houvesse um local onde os leitores pudessem deixar impressões/notas/questões/críticas. A mim quando leio um livro apetece-me sempre dizer bem de algumas coisas e mal de outras. Mas se calhar isso é para se fazer com os amigos e não com os autores (deve ser insuportável ler uma critica negativa).
Fico a aguardar o quarto.
Cumprimentos
Jonas, muito obrigado,em primeiro lugar pelos seus elogios, em segundo por se ter dado ao trabalho de comentar.
Se quer que lhe diga, tem toda a razão!
É uma falta da história... Por mais incrível que pareça, esqueci-me completamente do assunto. E não deveria ter sido ignorada, porque de facto foi (e é) uma questão de grande importância. Não só pelo aspecto "didático" (poderia ter tecido algumas elocubrações, com umas personagens a falar das vantagens e outras a desconsiderar o problema) como porque de facto parece impossível que não haja alguém no livro a pensar no assunto, já que não faltam ocasiões...
Agora não há nada a fazer! Olhe, fica para a próxima.