Sábado, 9 de Maio de 2009

Comentário de Maria Luisa Loytved-Hardegg

 Começo por dizer que, em todo o livro há uma poderosa nudez de palavras, a reflectir a sinceridade do sentir do Autor. Pode ser rude, extravagante, insubmisso, transgressor, mas é verdadeiro e nunca espalha “o véu diáfano da fantasia” para encobrir a verdade.

Dir-se-ia que, de repente, olha em redor, num jeito rápido de voo de vespa para, logo a seguir tornar-se falcão peregrino, voando em picado sobre as pessoas, as coisas, para dentro e fora delas, esquadrinhando-as em si mesmo, achando-se umas vezes, perdendo-se noutras tantas.

            As vezes usa diálogos assustadores, quando a natureza dos protagonistas assim o requer, consoante a vida que escolheram. Para o autor, não se trata de as pessoas serem más ou boas, apenas são como são, e assim as descreve.

Neste livro a pesquisa sentimental é procurada sem êxito em quatro mulheres, todas elas diferentes e que não só são fotografadas a branco e preto, ou pintadas com coloridos quase coléricos, mas também radiografadas com um rigor, uma precisão de aparelho robotiano, e a rapidez de um meteorito.

Poético em absoluto, ainda que o negue teimosamente, José Couto Nogueira é Modigliani quando faz amor e Klimt quando sonha... Refiro-me à personagem do livro, Alexandre, que sonha, ama, procura, encontra e perde.

            No meio desta barafunda de amores construídos e contrariados, das fúteis reuniões dos amigos, dos colóquios filosóficos ou de pura bazófia, dos escondidos da cocaína, resta apenas a solidão de um homem que não desiste de ser amado, pois daí depende a sua felicidade.

            Num estilo muito pessoal, o Autor gosta das antíteses para provocar o leitor. Lembra a mão de uma mulher exibindo na mesma anéis preciosos  lado de outros de fancaria. E quando diz, fingindo-se desnaturado, que não o afecta um terramoto que mata gente às centenas, e logo afirma, como (um) Jesus, que as mulheres da vida também são capazes de amar.

            Em todas as afirmações, sejam antagónicas ou não , é directo, sem rodeios, limpo.

            Mas fica ao leitor a responsabilidade de acreditar em qual dos dois pólos pende mais o critério do autor. Por um lado tem a necessidade imensa de compartir a vida com amor, na mesma casa, no mesmo leito. Do lado oposto está a vontade, às vezes até frenética, de desenvencilhar-se do casaco incómodo das preocupações caseiras e quotidianas, para poder usufruir da casa onde vive, a sós e sem chatices. A verdade é que tudo isto existe um pouco, ou muito, em todos nós.

            Como escreve o autor:

 

            “O cérebro, que nos deu a água corrente canalizada e a Internet, lixa-nos quando queremos dar vazão aos instintos mais saborosos. Somos magníficos a pensar e ao mesmo tempo tão infelizes como os animais mais primitivos.”

 

            A vida, consoante a sentimos e estimamos, é descrita com acerto e maturidade. Sem trapaças. Sem defeitos.

            Erros?

            Só encontro um, no autor e não no livro; é um inveterado fumador...

publicado por Perplexo às 16:18
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